Porta (s)

Uma abertura vertical que serve de passagem.

Passei por algumas. 

Das sólidas e tangíveis, a mais importante foi a que me levou ao renascimento e reencontro de minha integridade e beleza – esta intangível  – apesar de todas as marcas, estampas e cicatrizes que carrego por tê-la atravessado, e que, ironicamente, tomaram de mim minha beleza plástica e inata. Por esta porta, qual num parto natural, me refiz em corpo e psique, dando a mim mesma a oportunidade de permanecer aqui e avançar no lúdico e no sutil, amealhando as lições que preciso assimilar.

Das simbólicas – ah, poucas, mas indelevelmente fincadas na memória – creio que, como toda a gente, sinto na pele o tanto que me impressionou a última.

Já relatei outras passagens.

Uma delas, selada em uma das gavetas deste blog – e agora sorrio ao me lembrar das “críticas” do meu Editor à época – foi causa raiz para o renascimento que aquela outra, cá acima, me propiciou. 

Sim,  por que há também isso: portas são portas de portas de portas de portas… Assim como sucedem-se, do físico ao búdico – e além – os corpos, do grande portal atravessamos portas e portas, destinadas ao experimento projetado e sob medida para nossa estatura a cada passagem. Quase ao rés do chão ainda, há muitas à frente que terei que atravessar, e, bem sei, arranhões e cicatrizes à vontade me esperam… Mas não é uma queixa; é uma constatação. 

A bem da verdade, pousei hoje aqui para falar desta última. E, creiam, tenho para mim ter sido mesmo a última. Vejam se, tendo sido um de vocês a atravessá-la, não pensariam também se tratar de uma derradeira oportunidade!

Me descobri viva. Respirava. Minhas bochechas enrubesciam de novo, sorria; de novo o gosto pela leitura e pelo serviço.

Correr para a biblioteca, abrir os livros novos – de conteúdo vintage tão ao meu paladar – degustar o croissant amanteigado e o café forte e amargo. A melhor das sensações: folhear as páginas e encontrar nelas a trama perfeita, os personagens e cenários capazes de transportar ao onírico sem que eu precisasse piscar.

Saída do fog para uma nova chance. Havia uma boa poltrona no canto do salão, a biblioteca me acolhia e o café me aquecia para as longas noites de contos, sagas e romances. Daqueles embolorados que tanto aprecio e que me alimentam: não sei se a imaginação ou a memória.

Me refiz. Me vi. Me reli. E aquela porta, aberta, convidativa, diáfana sob o efeito da luz que deixava entrever, perpassei.

Distraída, embriagada talvez, tão irresponsavelmente feliz. Os livros sempre foram – acaba de me ocorrer – portas para mim. Para meu interior, para o sonho exterior, para a lembrança e a construção dos meus eus.

Atravessei a porta confiando na estória, nos personagens e, mais importante, no Autor. Não tinha dúvida de que ali, diante de mim, uma porta, um livro, uma História fora posta. E, sabem?, a quis até a última letrinha: entender o prólogo, compreender a contextura e psique dos personagens, relevar por sensibilizar-me diante das razões para vilanias e desditas de alguns “antagonistas”, seguir por cada emoção e me conter para não ir à última página antes da hora. Que porta! Redentora? Libertadora? Um presente?

Toda a minha força de renascimento, toda a minha absoluta firmeza e certeza da bondade, minha irredutível alegria pelo encontro. Sim, houve. E felicidade, mesmo. E entrega, vontade, alegria!

Um dia, pedi para conversar com o guarda-livros! O primeiro tomo estava encerrado e não via a hora de prosseguir. A estória havia me cativado e, ávida pela continuação, queria acesso fácil, rápido e sem restrições aos tomos subsequentes. Eufórica, julgara minha – a considerar o meu afeto e deleite com a saga – a narrativa e todos os desdobramentos resultantes.

Alguma regra estúpida me impediu o acesso ao guarda-livros e o tomo II está, empoeirado e esquecido, em alguma prateleira da Grande Estante, cujo acesso me foi negado.

Então, teriam vocês a mesma certeza que eu? Última porta? Decerto!

Bom Domingo.

2 comentários sobre “Porta (s)

  1. Para ser bem clichê, portas foram feitas para serem abertas assim como as janelas. Sabemos quando fechar cada uma delas. E de todas maneiras elas nunca são ou serão as últimas. Sempre há um, vá lá que seja, livro à espera. Do outro lado da porta. Um grande abraço e seja o domingo de paz e livros, café e tudo o mais.

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