À Temperança e à Alegria

Já dispus e já recompus.

Já me despedi e já registrei.

Já defini e já comuniquei.

Findo 2016, fechado o ciclo n[d]a tundra restou a sobrevida, mais do que a sobrevivência.

Não, não se enganem. Não estou – e nem nunca o fiz – pedindo permissão. Não estou soluçando nem me lamentando. Muito pelo contrário, preciso agradecer.

Constatei, chorei, rosnei. Mas lamento e queixa, não poderia. Como me isentar?

Não, não se enganem. Foi uma excursão voluntária. Temerária mas espontânea. Arriscada mas assumida.

Este Outono de 700 dias foi todo meu: por mim e de mim para fora, doloroso e ardido por dentro. Passei 1/3 da vida, acho, evitando-o. E não o entregaria agora para cômputo na conta dos meus companheiros de viagem. Vitimados, mais do que tudo. Daí minha gratidão.

Esta conta é minha!

Fui EU a mergulhar fundo em abismos, a olhar de frente para esfinges e quimeras, a não fugir do que há de não muito nobre em mim mesma.

Mais uma vez, não se enganem!

Não fui desleal senão comigo mesma. Respeito, e muito, meus parceiros. Nem sempre o jogo esteve totalmente aberto; houve blefe e cartas trazidas à mesa sem que eu tivesse intuído, mas não me senti enganada. Quando muito considerei como tática de jogo e evitei maiores julgamentos. Como eu poderia?

Não se enganem!

Mesmo minha permissividade esteve contaminada por meu egoísmo. Me deixei levar a zonas escuras, a emoções que me feriram, me deixei machucar. Senti-me dolorosamente viva. Experimentei – se não escrevi antes, pensei várias vezes – dores, emoções e sabores que não vivencei quando muito jovem, o que teria sido natural. E afundei numa enorme nostalgia pelo prosaico, fome e sede do cotidiano que, descobri, é um valor forte em mim. Preciso pertencer. Ser útil. Servir. A solidão outonal me tirou isso de alguma forma. Enquadrar minha emoção me aprisionou numa mordaça que apertava um pouco mais a cada movimento que eu fazia. E fui eu mesma que a pus em mim!  Dores e sensações cruciantes que ainda me queimam mesmo depois de liberta.

De alguma forma creio já ter pedido perdão. Mas reitero aqui. Esta “trip” não poderia ter acontecido sem a presença de amigos valiosos que me mantiveram acima da linha d’água mas que sofreram com minhas escolhas à revelia de seus desejos e, às vezes, de sua vontade. Talvez ainda mais do que eu. A estes cavalheiros valiosos todo o meu Amor e Respeito.

Não há, agora, muito da Ursa por aqui. O degelo chegou e estou alquebrada: sem corpo, sem pelo, talvez sem “alma” que possa suportar um outro outono; um novo inverno me seria letal.

O verão que chega talvez permita-me lamber as feridas, ganhar algum peso, recompor o músculo. Me ausento para respirar, purgar “feridas”, tocar em frente. Estou partida. Estou exausta. Meu coração não suporta grande movimento; perdi o fôlego, quero dormir, sumir, silenciar.

Não consigo escrever!!! Vocês perceberam??? Me angustia submetê-los a este texto pobre e “derramado”… Talvez minha mais vital perda.

A quem sorri neste momento, vou descansar e volto! Estarei em minha caverna, não no fundo de uma gaveta. Há muito por conquistar.

À Temperança e à Alegria: todo o meu Amor!!! Toda a minha gratidão! Me mantiveram “sã”, viva, pulsando e acreditando ao longo deste vermelho, rico e rascante outono que encerro.

Gratidão eterna a vocês, ao seu Amor e Cuidado comigo, mesmo, e principalmente, quando eu não mereci!

Feliz Ano Novo!  Até.