Devaneio

 

O momento mesmo em que náufraga apaga a fogueira e volta suas costas ao horizonte. Abandona.

A esperança se esvai.

A morte do tecido, da veia, do pelo, da pele; silencia o pulsar.

Suspensa no ar, interrompida a diástole reina a sístole mórbida; instalado o vácuo, o vazio, o negro dos olhos e dos dias.

Explosão solar, eclode a luz, cega a pupila que já não mais dilata.

Diafragma fechado para a luz e para o ar.

Da janela, a brisa fria da primavera que se apaga. De seus cílios, a cortina transparente a lavar tudo que não mais restou. Da porta que se fechou o amor insepulto, fétido, imorredouro, sem campa.

No ar revolto que se move quando se retira, a lufada de jasmim e benjoin, a maçã assada, o sabor da fruta, banho tomado. Nada se perde quando se afasta, vez que nada se ganhou quando aportou.

Nos pés pintados à henna, nos arabescos em suas mãos e pulsos, nas argolas e no ouro em seu pescoço e orelhas, o milenar jardim de lembranças e lenços, de véus e kajal.

Príncipes do Deserto, Cavaleiros Templários, Bucaneiros e Dandis. Ardis, Duelos e Paixão.

Onde o Amor?

A Rosa do Deserto fenece sob a chuva.

A Dama da Noite oclusa.

Nublada, a manhã avança. E nela, a ânfora vazia nas mãos esmaecidas.

Nana dorme, suspira, arfa.

Eis que a fogueira se apaga.

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