Fome de quê? Sede de quê?

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O tempo não passa; escoa, escorre.

E quando você se dá conta, meio século trans[correu]… 🙂

Desculpem o impacto que essa expressão causa! E me desculpo por tê-lo sabido e sentido, eu mesma, há alguns dias. Este mesmo vazio no estômago quando, num encontro de estudantes – aqueles que todos fomos – reencontrei amigos, colegas e professores.

Foi um momento feliz e, de tão raro esses dias, causou-me fortes impressões.

Não fora a insanidade tendendo à crueldade em que estamos imersos, a insalubridade dos dias, toda essa confusão que se instalou no País, é certo que o evento – e impressões e emoções que suscitou, além de desdobramentos – teria sido prazeroso, claro!, mas nem de longe tão marcante.

Minha vida ao longo deste lapso – ok, prometo não mais repetir o “neste meio século” – foi das mais prosaicas. Não que tenha faltado emoção, algumas alegrias genuínas e reconhecimento pelos meus esforços na justa medida de sua monta. Prosaica no sentido de medíocre, uma vida mediana, como a da maioria. Jovem, estudar, namorar, estudar mais, trabalhar, colher alguns frutos, conviver social e familiarmente. Poucos, e valiosos, amigos e a parentada – de sangue e não – crescendo. Amei mas não me casei – naquela acepção que está inculcada em nós – e não tive filhos de sangue; sobrinhos e afilhados, sim.

Ou seja, nada que justifique as 97 palavras que usei acima para resumi-la.

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Na minha vida profissional há uma técnica para os momentos de pouca força: o exercício de revisitar conquistas e superação de obstáculos que se nos interpuseram na vida. Fazer nos lembrarmos de que, mesmo o que julgáramos improvável, conquistamos ou superamos em determinado tempo e circunstâncias. E que se foi assim lá atrás, agora, decorrido o tempo – não vou repetir… – e acumuladas as experiências, é provável que mais uma vez o esforço compense.

É fato. Quando penso nas dificuldades hoje e no que conquistei e superei ontem, digo: “Bolinho sair dessa!” e sigo em frente.

Antes de ir para o encontro, precisei exercitar um pouco. A coisa toda que chamamos viver anda difícil esses dias. Não queria ir; mas durante o exercício auto-imposto, lembrei-me de que algumas das “questões capitais da existência” com as quais me deparei quando jovem, foram vivenciadas e vencidas com as pessoas que ali estariam. Que elas estiveram lá comigo. E que elas, mais do que meu desânimo, valiam o esforço.

E fui!

Foi muito, muito bom!

Sou uma colecionadora.

Tenho, nas minhas gavetas, as fitas, os bilhetes, os afetos idos, sumidos, transferidos. Encerrados. E não há nisso qualquer dor. Ser colocado nas minhas gavetas diz muito sobre impacto, profundidade, efeito. Afeto.

Reencontros.  Todos sabemos como são!  Primeiro as impressões, as primeiras indagações, creio, universais: “ainda temos muito em comum!”, “a velha chama ainda está aqui…”, “o que foi mesmo que nos aproximou?”, “tínhamos realmente alguma coisa em comum?”…

E por aí vamos! Depois, os relatos: trabalho, viagens recentes, estudos, amores, filhos. Homens raramente falam sobre companheiras, a menos que estejam por perto. Mulheres falam de todos: de ex-marido a sexo casual. Observo. Sorrio. Quem me conhece, sabe. Gosto de tentar alcançar a emoção embutida ali, o que vai além das palavras. Entrando na verbalização – e eu gosto de falar – fica mais difícil observar.

Passadas duas horas, chega o momento de ir. Eventos dessa natureza não acolhem bem, vencida a curiosidade inicial, mulheres desacompanhadas. Nada de juízo de valor aqui. Só constatação. E duas horas é meu limite. Alego um compromisso prévio, um tchau geral resolve e bato em retirada.

Foi bom. Um tempo com minha atenção voltada para o externo, atenta ao que “não sou eu”, às alegrias – sim, algumas dores reveladas também – dos antigos companheiros.  

Mas nem eu imaginava: ficaria melhor!

Dirigi-me ao estacionamento já com a chave na mão. Ao abrir a porta do carro, antes adormecido dentro da bolsa, o celular vibrou e soou. Zap. Minha irmã ficara de me avisar sobre um cliente em potencial que eu entrevistaria na 2a. feira. Achando que era ela, abri a bolsa, encostei no carro e comecei a procurar o aparelho.

Enquanto digito este post estou sorrindo. Não era minha irmã. Li a mensagem, coloquei o celular de volta na bolsa e me virei para abrir a porta.

É, o Universo é uma grande teia. Sincrônica. Sinto uma mão no meu ombro e no movimento reflexo óbvio me viro para ver quem é.

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Fome.

Ao me virar, recebo um abraço. Instintivamente, fecho os braços sobre o meu peito – defesa – e busco pelo olhar saber e entender de onde veio aquela onda de dois metros de altura.

Enzo. Um amigo de muito tempo que se perdeu de mim há pelo menos 25 anos (Opa! 1/4 de século! Essa grandeza que agora me persegue…).

Quando tudo se encaixa e realizo que se trata de um amigo, retribuo. Mas dois metros de homem para meus metro e meio dificultam alinhamentos perfeitos. Envolvo sua cintura e ele continua abraçado comigo, dizendo “Anninha! Don’Anna!!”

Que coisa boa. Ficamos ali num lapso de 30, 40 segundos que me pareceram uma eternidade. 25 anos de abraço em um minuto.

A sensação foi uterina. Um aquoso e morno abraço. Uma manta de lã num dia frio. Um afago indescritível.

Enzo se afastou, me olhou e generoso: “mas você não mudou nada!”  Mentira, claro!, mas nossa, se eu soubesse teria gravado suas palavras para um momento de precisão…  Não pelo significado mas pelo calor que carregavam, pela afeição naquele afago.  Ele sorriu e me perguntou porque eu estava indo embora justo agora que ele tinha chegado. Disse a ele como disse a vocês. Enzo propôs um papo rápido só para saber um pouco de mim depois de tanto tempo.

Como se diz não a uma proposição posta desta forma? Na verdade, ele não esperou que eu respondesse.

Havia uma cafeteria na entrada do estacionamento, fomos até lá.

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Nos sentamos. E ele me perguntou: “O que você quer beber, Anna? Está com fome? Algo para comer?”

Fez os pedidos.

Me pediu que eu contasse “como vai a vida?”

Perguntou:

“Como estão seus pais?”,

“Você tem sobrinhos?”,

“Seus irmãos estão bem?”,

“O que eles fazem para viver?”,

“Você ainda mora em Botafogo?”

“Você casou? Teve filhos?”,

“Concluiu a faculdade de Administração? Nunca entendi bem porque você quis fazer uma outra …”,

“E agora, o que você está estudando? E o trabalho, você está feliz?”,

“Nova carreira? Vai vender sanduíche na praia? (Risos) Hum, não é a tua praia! É, trocadilho… (mais risos)!”, “Trabalho com xxxx, se você precisar de contatos ou orientação para contratação me fala!”,

“Quando você vai fazer a cirurgia?”,

“Como você está bonita, flor!!”.  Ah, mentira! Eu sei. No meu olho não há alegria, nenhum brilho estes dias.

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Ficamos por ali conversando por mais duas horas. Eu pouco consegui perguntar. Minha fome era tanta e aquele banquete tão farto que soube de Enzo o básico e entreguei a ele todo o prosaico da minha vidinha.

Estava faminta.

É fato que damos muito mais valor àquilo que perdemos quando percebemos o perdido.

Ao final da conversa eu estava tão, tão feliz. Me dei conta de que há muito tempo não passava pela preocupação, explícita, de uma pessoa que me amasse – pai e mãe não contam aqui! Que há muito não me perguntavam: “Anna, querida, como foi o teu dia??!”

A gente nem percebe mas esta pergunta carrega um alimento poderoso: amor.

Fiquei dois dias em “flow”. Êxtase total.

Despedimo-nos. E deixamos marcado um novo papo. Da próxima, eu comandarei o show! Foi a condição que eu impus…

Cheguei em casa. Ao abrir a porta, minha mãe me disse: “Até que enfim você se divertiu!”

É! Mas foi bem mais do que isso…

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4 comentários sobre “Fome de quê? Sede de quê?

    1. Bia, o tempo é medida relativa. O perene é atemporal. Vai conosco. Os tempos passam, perdem-se na areia do deserto, nos canyons e nos pergaminhos esfarelados. O que é conquista está escrito em nós. Nada apaga. Nos modifica para sempre.
      Obrigada pelas palavras tão gentis.
      Bj.

      Curtir

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