E [a reunião] teve início…

Continuação do post de 04/10/2016. Original revisado e editado.

Rio de Janeiro, 28 de junho de 2016.

Ainda quarta.

A reunião, marcada para as seis da tarde, começaria no horário, as pessoas começavam a chegar. Sobre a mesa jarros d’água, copos em número suficiente e flores – lírios e rosas – que Simão enviara para nós de sua floricultura, em agradecimento ao convite e para desculpar-se pela recusa. Simão sempre fora um homem gentil.

lirios-e-rosas

Esta noite não haveria o tradicional lanche ao final da reunião. Estimáramos uma reunião um pouco mais longa e decidimos encerrá-la com água fluidificada e um boa noite fraterno. Haveria oportunidade – a depender das decisões tomadas – para outros momentos de congraçamento.

Assim que nos acomodamos à mesa, João levantou-se e iniciou a reunião, pedindo que cada um se apresentasse. Desnecessário, pensei, nos conhecíamos há muito tempo. João, nervoso, procurava um alívio para sua tensão. Ele mesmo havia pedido, na reunião anterior, autorização para conduzir este encontro e fora unânime a concordância. João era um orador nato, seu trabalho o preparara para falar a outras pessoas com desembaraço e precisão, lapidara uma habilidade natural. Mas a importância e gravidade do assunto pesavam e João sentia-se pouco à vontade. Não me atrevi a tomar a palavra, apesar de tentada. Feitas as apresentações, liguei o gravador. Em alguns dias, todos receberiam a transcrição. Ei-la.

despertar

“Boa Noite.

Meu nome é João. Faço parte deste Grupo desde que nos reunimos pela primeira vez na casa da Viviane, oito anos passados. Éramos então seis membros: Luzia, Carlos, Marcos, Mateus, Viviane e eu. Àquela época estávamos assustados com a mortandade de peixes no lago e com a epidemia que vitimou vários dos preás na mata próxima à represa. Nunca tínhamos visto nada parecido por aqui e nos reunimos com o intuito de, mobilizados, pedir ao prefeito ações efetivas para descobrir e punir as eventuais responsabilidades ambientais das empresas instaladas na região. À medida que nos reuníamos, percebemos que, além daquele objetivo mais imediato, tínhamos algo em comum: uma visão compartilhada de nosso papel no mundo e sensibilidade em relação aos ambientes naturais e sua preservação. Foi assim que, depois de encaminhadas as questões ao prefeito – nunca resolvidas junto ao empresariado local, registre-se – mantivemos encontros mensais, hoje semanais, para trocarmos ideias sobre nossas intenções e ações afirmativas frente aos desafios ambientais e comunitários deste nosso querido torrão. Desafios que se agravaram em nossa região, e infelizmente, sabemos, encontram-se disseminados por todo o país e além de nossas fronteiras também. Vivemos numa região ainda habitável; mais ao sul, proliferam epidemias, surgem a intervalos cada vez menores doenças desconhecidas, a água potável escasseia – quer por exaustão quer por contaminação – e a quantidade e a ferocidade dos conflitos por terras aumentam exponencialmente. Nos últimos três anos, temos nos assustado com o fluxo crescente de pessoas que chegam às cercanias da cidade e das fazendas da região. Sem moradia, acampam ou pedem abrigo na cidade e, sem trabalho, tornam-se uma questão a mais para a municipalidade resolver. Temos visto episódios de violência e de estranhamento na convivência, inéditos por aqui, e temos tido dificuldade de conduzir com serenidade a situação. Sabemos que este quadro vai além das questões sociais e das políticas públicas abraçadas pelos governos, responsáveis pelo agravamento da situação.

Do ponto de vista material, este é o quadro. Conforme as reuniões do Conselho Municipal, das quais alguns de nós participamos, as medidas propostas e em implementação pelo prefeito, ao menos no âmbito da cidade, estão sob relativo controle. Alex, Rebeca e Miguel, imagino que ainda não tenham conhecimento da situação. Recomendo que se informem a respeito, solicitando a leitura das atas registradas na Prefeitura, caso tenham interesse em permanecer neste Grupo.

Acreditamos na força que as ações coletivas têm em momentos de dificuldades e nossa proposta é de nos reunirmos e ampliarmos, por adesão, as “ondas de choque” que possam transformar uma realidade futura que consideramos crítica e que exigirá de todos nós uma dose extra de boa vontade e coragem.

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Esta reunião foi convocada para tratar de uma contraparte desta situação. Somos, em maioria, espiritualistas. Sim, sei que há ateus entre nós. E católicos, budistas, espíritas, metodistas. Não estamos preocupados com esta questão, e lembramos que não haverá melindre de qualquer ordem se qualquer um, ao longo da exposição, desejar retirar-se por discordar do que será apresentado aqui.

Muitos de nós, em diferentes ocasiões – confessionais ou não – temos nos deparado com o viés imaterial, espiritual, metafísico, transcendente – ou como queiramos nomear – de um momento que se aproxima e cuja preparação está evidente no desequilíbrio e conflitos que hoje se espalham pelo mundo. É farta a literatura sobre a chegada d’Os Tempos. Desde sempre o fim dos tempos, do mundo, da existência, o despertar dos mortos, a volta, a ressurreição, e todas as inúmeras e respeitáveis visões de fim de ciclo, permeiam a existência do homem na Terra. É farta a literatura a respeito e agora mesmo, em todo o Mundo, os profetas, líderes religiosos, gurus arregimentam adeptos e os preparam para o momento da verdade.

Acreditamos que há que se separar – e este é de verdade o momento – o joio do trigo. Há uma esperteza e abuso subliminar na “convocação de exércitos”, na preparação das “falanges”, nos critérios de “identificação dos escolhidos”. Este Grupo vem conversando a respeito há muito tempo e repudiamos esta abordagem. Não acreditamos em privilégios ou em punições. Termos retornado e estarmos aqui diante da possibilidade de vivenciarmos este momento de “passagem” é encarado por nós todos como uma oportunidade valiosa. Sabemos da nossa responsabilidade e que não seremos poupados, ou “salvos”, como pretendem fazer crer os “profetas do apocalipse” que crescem como mato após a chuva.

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Materialmente, sabemos que a estrutura geológica do planeta vai sofrer abalos cada vez mais intensos e recorrentes, o clima já apresenta um comportamento errático e em algumas áreas, inversão, epidemias em animais tornam escasso o alimento, a fauna tem sido afetada e as questões sanitárias deterioram rapidamente. Doenças têm abatido populações inteiras, crianças com sérias deformidades chegam ao mundo para mães aparentemente despreparadas; sentimo-nos, como humanidade, fracassados em nossa competência e avanço tecnológico e desafiados dia a dia.

Há, do nosso ponto de vista, uma leitura que extrapola as questões materiais apontadas aqui. Nosso conhecimento e competência humana e tecnológica devem ser colocados a serviço do socorro e atendimento a todos os afetados por estas questões. Dentre nós há médicos, professores, profissionais de saúde mental, arquitetos e engenheiros. Todos aptos a contribuir em nossas especialidades. Mas aqui, hoje, vamos falar de ajuda de outra natureza. De uma responsabilidade que extrapola nossas competências, mas que não prescinde de nossos talentos.

Precisamos nos preparar para acolher fraternalmente. Para ajudar, sem barreiras familiares e citadinas. Para amparar infância e velhice sem que haja laços. Precisaremos dividir, compartilhar. Sim, eu sei, e eu mesmo participo das ações comunitárias de provimento de sopa e abrigo aos pobres. Não temos visto em nossa cidade moradores de rua e mendicância porque atacamos o problema com uma proposta fraterna de abrigo e trabalho em horário flexível. Bacana. Um avanço. Mas sabemos, e já acontece, a cidade receberá pessoas que estão migrando, fugindo, buscando um pouco mais de “calor”. Vem em direção ao Norte, em busca de calor! Não, não é um contrassenso. No Sul, há já deflagração, fome e conflitos que afastam, antes de exterminar, os mais fracos. Aqui por cima há espaço, terra, e um certo “calor” que vem de nosso espaçamento demográfico. Temos mais recursos e podemos ajudar. Isso atrairá as pessoas e precisaremos nos adaptar. Se os prognósticos estiverem corretos, logo seremos invadidos. O prefeito fez estimativas e vamos precisar nos organizar para evitarmos danos humanos e materiais que comprometam – não nosso estilo de vida, este está desde há muito comprometido – nossa convivência e segurança e a daqueles que vão chegar em busca de auxílio.

Há na cidade um ruído que não existia, um movimento novo, pessoas de outras localidades, outros costumes. Precisaremos nos adaptar, mas propomos fazer isso sem nos “armarmos”. Em nossa última reunião, fizemos um exercício: imaginarmos como seria sairmos daqui sem trabalho, sem bagagem, expulsos por falta de recursos, doentes, e nos dirigirmos a uma outra cidade, pequena, com um desejo natural de refazer a vida, “sem lenço e sem documento”. Como gostaríamos de ser recebidos? Colocamo-nos no lugar dos habitantes da cidade a que chegaríamos e “bingo”! Teremos que nos preparar; a dor não é somente do visitante, perderemos espaço e liberdade de alguma forma. É provável que tenhamos que exercitar e descobrir possibilidades insuspeitas.

Sabemos também que somos um grupo diminuto. Que haverá conflito. Que nem todos pensam e agirão de acordo com nossa proposta. Sabemos também que mesmo nós teremos sérias dificuldades. Mas nossa proposta primeira – colocada a vocês neste encontro – é: que tal tentarmos?

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Não vamos entrar aqui nas questões espirituais, per si. Temos visões particulares sobre as forças que operam neste momento sobre o planeta e de que forma, confluindo, têm levado o planeta a este estado, lembremos, com nossa ajuda! Poderíamos abordar aqui a mudança de dimensão da própria Terra, seu processo evolutivo, expurgos, portais. Poderíamos, sem problema, destrinchar a atuação dos dragões e os movimentos de limpeza umbralinos. Mas foi nossa decisão também que cada um deve se preparar conforme seu conhecimento e estudo. Decidimos que concentraríamos nossa atuação sobre a Mensagem Crística por excelência, sem adentrarmos as questões doutrinárias e filosóficas que nos distinguem em nossas crenças. Já há tanto a nos separar! Vamos todos com a Caridade, o Amor, a Fraternidade. A cada um, em suas convicções, a responsabilidade pessoal de fortalecimento espiritual e preparo para os momentos de turbulência e dor à frente…”

E continua.

A REUNIÃO

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