A REUNIÃO

Rio de Janeiro, 28 de junho de 2016.

Nós. Domingo.

Chovia frio. Estávamos à porta, aguardando a chegada de Alexandre. Saíra para compras, mas duas horas depois ainda não havia retornado e estávamos preocupados. Mesmo com a contumaz parada na loja em que Rebeca trabalhava nunca demorara tanto. Luiz tocava meu rosto, esfregava meus braços para espantar o frio, mas estávamos molhados e apreensivos, o que impedia algum calor e conforto.

montanha

Alexandre estivera envolvido com uma turma “da pesada” e suas ausências prolongadas nos faziam reviver a briga que os levou, todos, a uma noite passada na cela da delegacia. Experiência insone e educativa, e de certa forma típica para os rapazes, mas como guardião de Alexandre, Luiz sofria a cada deslize do rapaz; sentia-se culpado e incapaz de levar adiante o compromisso assumido com sua irmã, falecida, de cuidar do garoto e lhe dar proteção e rumo na vida. Um equívoco. Alex não poderia ter desejado melhor figura paterna para seu temperamento. Luiz era firme, mas amoroso.

O breu lá fora prenunciava ainda muita chuva. Evento extemporâneo, fora de estação, comprovando a existência de um desbalanceamento. Ouvíramos muitas vezes os alertas de cientistas sobre os efeitos nefastos de nossa incúria sobre os ambientes – macros e micros – e a colheita inevitável de nossa negligência. Diferentes governos, linhas de pesquisa e pensamento científico sucederam-se nas tentativas, frustradas pelos interesses corporativos e governamentais, de reequilíbrio e contenção da destruição.

Vivíamos, há muitos anos, sob racionamentos intermitentes de água, de energia e de suprimentos. Íamos levando, nos culpando mutuamente, mas sem nos preocuparmos de verdade. Havia comida na mesa, teto sobre nossas cabeças e trabalho. Porque nos preocuparmos com mais?

Eram numerosos e renitentes os conflitos, espalhados pelo mundo, pela obtenção de recursos naturais e manufaturados, mas estes chegavam até nós como ecos de um mundo muito, muito distante do nosso paraíso nas montanhas. Aqui, os efeitos eram suavizados pela abundância de verde, pela água corrente disponível, pela vida sem a correria e competição dos grandes centros. Quando decidimos nos mudar, saindo da cidade lá embaixo, fizéramos uma boa escolha. Puséramos uma distância em relação aos efeitos negativos da correria e do “canibalismo social” com o bônus de uma vida confortável e sem sustos.

Nos últimos três anos, entretanto, presenciáramos mudanças constantes e em alguns casos, alarmantes. As nascentes e corredeiras passavam por um processo de esvaziamento e insalubridade, os animais silvestres – um prazer na convivência e um indicativo de saúde do ambiente – tornaram-se arredios e alguns simplesmente não avistávamos mais. Com o êxodo dos pássaros e pequenos répteis e anfíbios houve uma proliferação intensa de insetos e tivemos que “telar” nossas janelas e portas, algo impensável e até certo ponto incoerente com a vida aberta e conjugada à natureza que decidíramos viver 15 anos antes. Havia também a apreensão constante com as epidemias, algumas de doenças até então desconhecidas ou circunscritas a regiões isoladas do planeta, e que agora irrompiam em cidades próximas. Estávamos todos sob os efeitos do desenvolvimento a qualquer preço. Nosso bem viver estava irremediavelmente comprometido.

chuva-janela

Algumas pedras de gelo atingiam agora a nossa varanda e decidimos entrar. Deslocamos as poltronas preferidas, aproximando-as da janela, e nos sentamos, mão dadas e olhos voltados para o breu lá fora, esperando ver em breve os faróis da pick-up trazendo Alexandre e a sacola de compras.

Luiz, tenso, mas contendo-se para não me alarmar, ligou o aparelho de comunicação da sala e sintonizou nos canais usuais, buscando explicação para a demora de Alex num acidente, em efeitos da chuva, na queda de uma árvore, num deslizamento ou rompimento de barragem. Qualquer coisa que pudesse ter impedido a volta do rapaz para casa no tempo esperado. Calei para não agravar sua angústia, mas desde cedo aquela difusa sensação de que “algo vai acontecer” me rondava. Quando Alex pediu mais cedo o cartão para as compras, disse-lhe que tínhamos em casa o necessário, mas ele insistiu em ir, me confidenciando o desejo de encontrar-se com Rebeca. Sua ida à cidade “para compras” era um pretexto. Alex andava um tanto agitado desde que a amiga conhecera Miguel e os dois aproximaram-se. ‘Preso’ na montanha, sentia-se em desvantagem frente a seu amigo de infância, portador de dons tão especiais. Seu senso de autoproteção estava abalado, fazendo-o expor-se desnecessariamente. Manter a confiança frente a uma paixão ainda nascente é difícil e, compreendendo sua ansiedade, anuí com a sua ida à cidade. Mas agora me angustiava.

Não havia notícias que justificassem sua demora. Ansioso e irrequieto, Luiz caminhava de um lado a outro da grande janela de vidro. Àquela altura havia me perguntado umas 20 vezes se eu sabia onde tinha ido o rapaz, se estava certa de que ele não tinha mencionado um desvio, atalho, encontro com os amigos, qualquer pista. Não quis revelar suas intenções com Rebeca – o trio causava desconforto a Luiz – e ter que aguentar sua irritação com o ímpeto do garoto. Evitaria a todo custo ter que lembrá-lo do passado, mas em defesa de Alexandre não hesitaria, mesmo sabendo que confrontá-lo doeria. Melhor calar. Luiz tem um enorme coração, mas é impaciente, irascível e muito, muito rígido. Um homem íntegro, mas difícil à beira do cruel, resultado da forja porque passou em muitas ocasiões em sua vida. Seu passado doloroso, todo ele, o tinha endurecido.

Meu companheiro é um homem de valor que a despeito de não me acompanhar em minhas crenças, nunca as depreciou, interferiu ou tentou me impedir de segui-las. Uma raridade em tempos de exacerbado fundamentalismo e acentuada intolerância, alguns dos motivos que nos impeliram a sair da capital. Quando nos conhecemos o país passava por um momento conturbado, de lutas pelo poder e ações impositivas com um viés ideológico que nos submeteram a um governo opressor e de profundo desprezo às maiorias silenciosas e desprovidas. As políticas de proteção social e do meio ambiente tornaram-se perfumaria para resguardo, precário, da imagem governamental frente à Comunidade Internacional. Não havia, de fato, qualquer preocupação com os cidadãos e com a continuidade de programas que permitiriam à nossa sociedade o salto civilizatório desde sempre almejado e inúmeras vezes abortado por interesses corporativos e políticos. A sociedade deteriorou-se rapidamente em suas ações afirmativas de cidadania e retrocedeu a patamares de pobreza que obtivera êxito em minimizar alguns anos antes. Luiz fora um ativista aguerrido e um homem valioso para as causas humanitárias. A opressão o afastou da luta aberta, mas sua vida em família e sua participação cidadã mantiveram-se pautadas sempre por uma postura justa e coerente com suas idéias e seu preparo intelectual. O admirava por isso. Mas não somente: era um artesão refinado a viver de sua arte. Um pintor musicista. Um bardo. Sentia-me devedora da Vida por tê-lo colocado em meu caminho.

Há dois meses, Luiz iniciou uma tímida conversa sobre seu comparecimento às reuniões de quarta-feira. Em suas palavras, para “me acompanhar” – havia alguns arruaceiros residindo na cidade nos últimos meses – e para “entender melhor o que me atraía tanto nesta tal reunião”. Surpreendi-me com sua oferta, sem valorizá-la para não o constranger. Demonstrei certo alívio dizendo estar “preocupada” com o assédio dos forasteiros. Ele fingiu que acreditou e eu fiquei genuinamente feliz por tê-lo comigo. A lisonja do ciúme, mesmo que fingido, tocou meu coração e desde então Luiz me acompanha às reuniões do Grupo. A verdade é que não consigo negar-lhe nada e sempre que é imperativo fazê-lo – Luiz é um déspota, esclarecidíssimo, sempre que permito – aplico uma permuta posterior que o compense. Dizem que isso é amor; a meu ver é simplesmente a vontade de vê-lo feliz. O que provavelmente é a mesma coisa.

Divagando e hipnotizada pelo vai e vem de Luiz frente à janela, despertei ao ver a claridade dos faróis despontando na sebe e levantei-me para recepcionar Alexandre. O rapaz chegou agitado, se desculpando pela demora, mas sem se alongar ao perceber a fúria silenciosa de Luiz. Deixou as compras no balcão da copa e despediu-se, indo em direção ao seu quarto para recolher-se. Chamei-o para lanchar conosco, mas nos disse que estava satisfeito: havia comido um sanduíche na cidade ao perceber que a chuva o faria demorar a chegar. Nenhuma gracinha, nem atrevimento. Alguma coisa o detivera, mas não queria revelar. Compreendi sua retirada; enfrentar Luiz furioso não era agradável e Alex o tinha em alta conta. O laço entre os dois os mantinha em estado permanente de tensão; havia ali um grande amor que deixava Luiz e Alexandre amuados por suas culpas. Buscavam o equilíbrio, mas suas vaidades e temperamentos os impediam, e ao caírem sob o peso de suas dificuldades, arrependiam-se sem saber como capitular frente à enorme e mútua admiração de um pelo outro. Um ajuste pendia e eu procurava – a despeito de minhas preocupações com as conseqüências – não interferir. Ainda.

E continua.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s