Efeito Colateral

Não há música.

Há muito tempo quero escrever sobre isso. “Me falta distanciamento”, sempre que me propunha a iniciar, pensava. E deixava para uma outra ocasião em que discorrer se mostrasse mais oportuno. O tempo foi passando, e foi bom. A cada dia tenho novos insights sobre o assunto e acho mesmo que em seis meses terei uma outra e mais ampliada percepção. Mas nestes últimos dias mergulhei fundo nessa que para mim é uma vivência inédita e, em certa medida, reveladora.

Já mencionei antes aqui, e nas muitas páginas que percorro e onde detenho meu olhar, que “virtual” é um universo que considerava inviável. Não para a troca – conhecimento & compartilhamento – muito menos para a racionalidade. Mas impraticável do ponto de vista emocional. E é bom que se diga – mesmo que seja óbvio – que minha percepção baseava-se no meu registro de troca emocional: sempre presencial, epitelial, térmica, tátil. Em todas as minhas relações o componente emocional foi disparado, construído, alimentado e desterrado sob o concurso sensorial. Muita racionalidade temperada com uma dose razoável de sinestesia. E confortável me deixava a composição: quando afogada pela (falta de) racionalidade me agarrava à bóia dos sentidos e tudo se resolvia. Ao adentrar o “virtual” achava fantasiosa e pouco racional que uma relação – quer de amizade ou amorosa – pudesse frutificar. Ainda que houvesse um encantamento natural, pela ausência da “dura realidade”, não podia conceber que um sentimento mais consistente pudesse se aprofundar e ganhar contornos “reais”.

Horrível tantas aspas; também acho. Mas são apenas indicativas do meu equívoco, sem nenhuma intenção depreciativa, estejam certos.

Na rede uma infinidade: pesquisem “amor virtual” no Google. Uau!!! Enciclopédico o retorno. Emoções básicas: medo, raiva, amor. Encontros reais, desencontros trágicos. Ilusão e construção de afetos genuínos. Redes de solidariedade, troca afetiva, solidão na presença, presença na distância. Daria um post por dia, pelos próximos 20 anos. Aqui vocês podem encontrar muitos do mais profundo de mim; mas não tenho todo esse tempo pela frente para discorrer a respeito.

Sim, sei que estou chovendo no molhado. Vocês sabem mais e melhor, e há bem mais tempo, do que eu, a “bobinha”. São craques nessa coisa de captar o mood , de entender a rejeição – sou péssima nisso – e de captar a agressividade. Eu não; e definitivamente não almejo isso. QUERO, sim, falar aos afetos que encontrei aqui e por aí sobre uns ciscos e visgos, e AGORA.

Eis então que cheguei a uma encruzilhada.

João – meu querido – é José? Se é, porque anda cortejando Marina? E se Marina ri e graceja, sabendo que José é João, ri e graceja sabendo que João é meu querido? E João, o que está fazendo? Sabe João que eu sei que ele é José? Grave. Não sabe? Grave. E porque – sempre me pergunto – temos que fazer crer que é Vanessa “conversando” com Alberto quando sabemos que os dois namoram e não são nem um nem a outra? O “a esconder” não é problema meu mas me incomoda. Qual é a agenda; a intenção; o motivo? E é assim, esse incômodo, porque Anna que é só Anna e sempre Anna, se percebe entregue a João que é José que é Marcos que é Rosa. E se forem também “Vanessas” e “Albertos”??? Ah, e sabe a Marina? Detesta Anna. E é também Lúcia, Carlos e muitas musas e divas. E segue Anna. Para quê se a detesta? Muitas raízes quadradas numa mesma equação!!! Muitas incógnitas. Anna, só, com as quatro operações, os quatros reis, sem ases. Ah sim, é múltipla, mas não se esconde. É muitas, mas o rosto é sempre aquele: traços finos, nenhuma surpresa, nada extraordinário, glamouroso ou fake. Não joga. Fala com todos, às vistas de todos. Baita vulnerabilidade, unilateral. Assunto em alcovas cerradas e em cifras cheias da malícia dos covardes e pusilânimes. Muita desvantagem. Pouca satisfação. Enorme desapontamento. Ah, fora néscia…

Eis que Anna tem opções à mão. Fingir que não sabe: adoeceria. Aceitar: adoeceria. Relevar: adoeceria. Também nestes casos. Pureza? Não. Egoísmo. Ciúme. Brio. Um desalento crescente. Não sou confiável? Como pode haver qualquer sabor em revidar o insólito? Camuflar-se? Não. Replicar-se? Não. Impossível. Igualar-se; resvalar para a hipocrisia? Que pena, não dá!!!

Foi muito bacana conhecer pessoalmente alguns amigos virtuais. A ver se a sintonia persistia, a mostrar-se real, a deixar-se perceber concreta, falível, imperfeita. Marcada – mãos, rosto, alma – pelo tempo, pela fricção como os seixos do rio, pelo vento erodindo e sulcando. Mesmo depois, descobrir que me desnudei sem reciprocidade, perceber a dissimulação e os movimentos sub-reptícios, não foi suficiente para minimizar o prazer dos encontros. Apenas para impedir reencontros, virtuais e reais. Mas nos demos a oportunidade de nos colocarmos em dimensão real e minhas lembranças, mesmo manchadas, guardam momentos de companheirismo e gentileza que têm seu valor e me acompanham. Não as renego nem desvalorizo. Lamento que tenham seguido caminhos ásperos, mas decerto não fui eu que os desenhei.

Ciclos encerram-se. Lembrei-me agora de uma analogia – gosto delas e de metáforas, muitas – que deixei num texto, de mesma temática, no GGN. Do terremoto, que subaquático, cria a ondulação imperceptível no meio do oceano, onda escondida sob a pressão marinha e que ao aproximar-se da costa, mostra-se majestosa, destruidora, gigantesca e afoga, ao se derramar sobre tudo, qualquer vida, tudo que respira e pulsa. Tsunamis começam sorrateiros, no bater de asas de uma borboleta – adoro clichés, e quem pira com eles -, quem sabe num rosnar, talvez quando morre uma fada. E a partir daí, é o tempo da onda chegar à praia e assolar. Fica o perene – o vivido, emoções, sentimentos, lições – e tudo o mais é varrido. Do lamento do que sobrou, reconstruir. Sem vontade de nada mais.

Um desses textos para reflexão que vemos por aí conta a história do mascate. Deixo lá ao final para quem tiver vontade de ler.

Pois que quero me despedir.

Nem todo texto que escrevo traz uma conclusão. Minha escrita, aqui, não segue regras nem métricas. Não me obrigo a introduções, corpos e conclusões. Nem coerências e consistências. Gosto do fluir. Há quem duvide, mas aqui nada é obrigatório nem proibido. Só o desamor. Este não permito. De resto, tudo dou. E recebo mesmo o que me fere por amor. O que me estoca em desalento.

Mas este traz. Este ciclo encerro aqui.

Amigos virtuais não mais? Claro que não é isso. João, José, Marina… Estive com eles; nos tocamos e friccionamos. Valioso. Passado ESTE tsunami, a todos que me visitem, visitarei. Como sempre. A todos que encontre em minhas andanças, e que me toquem, darei minha palavra. Mas, do teclado, só mesmo isso.

Afeto, para quem me segure e beije as mãos. João que eu acredite João. Que me olhe nos olhos e veja neles tudo o que há para muito além de minhas letras.

Há alguns dias me deparei com uma afirmação que não tive chance de compartilhar e que dizia algo como “quem quer e sabe onde te encontrar não precisa de estímulo…”.

Me calou fundo.

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O mascate:

“Conta-se que um mascate, viajando com sua maleta pelos rincões do mundo, chegou a um vilarejo muito modesto…

Havia lá uma cabana e o mascate pediu pouso. Era tudo muito simples; cômodo pequeno, muitos livros pelo chão, simplicidade e utilidade. Sem excessos, sem sobras. A mobília: uma cama, uma mesa e uma cadeira.

Deu-se então, no único cômodo, o seguinte diálogo:

– Onde estão seus móveis? Perguntou o mascate ao morador.

O velho sábio que o acolheu olhou ao redor e perguntou:

– E onde estão os seus…?

– Os meus?! Ora, mas eu estou aqui só de passagem!

– Eu também…”

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3 comentários sobre “Efeito Colateral

  1. Anna, a virtualidade carrega com ela uma estranheza impossível de qualquer prognóstico. Isso porque há pessoas de todos os tipos. Muitas são reais, não nego, mas inúmeras são pura ilusão. São tão voláteis que crer, ainda que se tente, é como pisar em areia movediça. Não sei se entendi, mas senti uma ponta de decepção no que escrevestes. E compreendo perfeitamente porque já passei por isso. Mais de uma vez, acredite.

    Por que não aprendi? Porque insisto em crer nas pessoas. Não levo todos pra um mesmo entendimento. Há que existir pessoas autênticas nesse universo, e é por elas que continuo. Para os verdadeiros, polegadas diante dos olhos não determinam conduta. No entanto, para os oportunistas é um caminho franco para o ardil.

    Desde quando comecei nessa esfera, conheci pessoas e pessoas. Sempre usei o mesmo nome para o blogue, mesmo quando passei a usar outra plataforma. Contudo, conheci muitos que mudam de endereço e nome com o intuito de apagar rastos. Inútil. Mais cedo ou mais tarde a gente percebe.

    Daí, vem o amargo desapontamento. Olha, a gente sobrevive, sim. Realmente, apesar de toda decepção que já sofri, principalmente com pessoas imaturas e sérias, e imaturo aqui em absoluto tem a ver com idade, ainda conheci e tenho conhecido, muita gente boa, e são elas que permanecem. Estas têm durado com os anos. Já aquelas, assim como vieram com os ventos, com eles se foram. E pior, muitas, depois de irem com eles, usam foices sob as sombras. Acontece que quando a luz repousa sobre nossos olhos, nada mais nos engana ou atinge.

    Espero de coração que você sobreviva a tudo sem nenhum ferimento. E, de igual modo, que seus olhos possam ver mais claramente que os meus. Seja sempre fiel a você mesma. Assim como percebo que és. Bj.

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    1. Cris, diversidade e necessidade de anonimato não me incomodam. Há uma miríade de personas e inúmeros motivos para sua existência que não me cabe questionar. Existem, ponto. A expressão sem identificação é tentadora e, pelo que observo em alguns casos, defensiva.

      Mas, sim, há decepção, desilusão, mágoa.

      Também acredito antes de desacreditar. Exaustivamente. Este é um valor meu. Pertencimento: a uma “querência”, espaço de convivência, a uma ideia, às pessoas. Não posse (ok, um pouquinho!) mas pertencimento, identificação, comunhão. Não há aqui sentido religioso. Isto, trato em outra caixa.

      É o que me leva a retribuir, elogiar, palavrear com carinho, não saber abandonar. Já “estive” uma figueira seca de onde nem espinhos se conseguia extrair. Não existe nada mais triste. Conter talentos é matar a alma. Tento ir à exaustão na compreensão; às vezes não dá.

      Fiz um post tempos atrás sobre um ardil, associando a situação a um texto literário. Envolvia pessoas da blogosfera e suas “pequenas” – porque minúsculas – artimanhas, arapucas, simulações. Quando releio hoje acho que cometi equívocos, mas poucos. Não tenho a malícia que o ambiente requer mas já àquela época percebia atitudes, “gestos”, recorrência, um certo “tom”, esgares. Fakeness.

      Não questiono – e nem penso muito a respeito – quem não gosta do que escrevo ou de mim, pessoalmente. Sintonia não é escolha. O outro é aquilo, vibra daquele jeito. E eu não. Natural a repulsa. Mas fico chocada quando retribuo uma visita, comento o post de alguém que veio até aqui e recebo deboche ou sarcasmo de volta. A “pessoa” curtiu ou não o meu post? Foi isso que me levou a comentar sobre o dela…

      Não quero me tornar “isso”. Qual o sentido de escrever para alguém que me engana? Não sobre a “pele” que usa comigo, mas sobre suas intenções. Que fala comigo como A, e me machuca, expõe como B.  Em que isso me faz pertencer? Zero. Não escrevo para quem me desagrada. E aos que agradam, porque eu seria “econômica”? Para, entregando aos pouquinhos, obter alguma coisa?

      Meu tom aqui é de decepção, mas também de reafirmação dos meus valores. Não vou mudar meu jeito de tratar a todos com os quais encontre afinidades, desde que seja esse seu desejo também.

      Não tenho ganas de popularidade. Nem a agressiva necessidade da imposição. Mas sou livre e não abdico da minha prerrogativa de falar com quem queira e da forma como queira. Sem liberdade não respiro. Quem puder respeitar isso, abrigado estará na minha chácara e em tudo o mais. “O que é meu é teu”, sabe?

      O ponto que pretendi fazer aqui foi: amizades, todas. Amores, os que possam ser vistos e tocados – não tenho estrutura para amores à distância, platônicos, mirabolantes ou idílicos. Não gosto de gincanas e apostas. Estou longe desta abstração. Se não puderem abdicar de suas personas e do que elas anteparam, serão amigos. Se não quiserem ser amigos, é certo, deixarão – ja deixaram – feridas profundas. Mas a cada um suas escolhas.

      De todo o resto – haters, fakes, falsos amigos, portadores de foices, dissimulados, ressentidos, escandalosos, megafônicos, whatever – quero distância. Não vou consertar o mundo.

      Não sei se vou um dia ver tudo claramente e se quero mesmo isso, essa “esperteza”. O que tenho visto tem me decepcionado e me afastado; me entristece o expurgo de espaços e pessoas, mas é assepsia necessária. Preciso que minha energia esteja limpa.

      É irônico que minha dor venha justamente de ser fiel a mim mesma, de não abdicar da minha liberdade, e de perceber que mesmo agora quem me conhece – ou deveria – não confia em mim e “compra” tudo isso de que tratei nessas linhas. E que nada tem a ver comigo. “Tô” aqui cultivando beijos e abraços, lendo e apreciando poesia e prosa, nada me deixa mais feliz e alguém usa isso para me afastar das pessoas de quem gosto? Louco.

      Obrigada pelas palavras de conforto, esclarecedoras e por compartilhar tuas impressões comigo. Me fez escrever um outro post. 🙂

      Bjo. Até.

      Curtido por 1 pessoa

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