Socrátes? Vivíssimo…

Houve alguns antes.

Sábios, cuidadosos e ávidos por ensinar e trocar. Ensinaram-me, retribui-lhes. Eram comigo nas passagens e nas cancelas, diante dos meus, e dos nossos, abismos. Revelaram segredos e desnudaram mistérios, dobras, nebulosas; abriram portas de quartos escuros, me levaram a berçários de estrelas. A tudo tiveram acesso. Atavicamente – quero acreditar – os segui, mergulhei. Profunda familiaridade – com ritos, modos, sensações – me legou uma curiosidade crescente e um ímpeto pelo sólido, pelo profundo, pelo que amplia. Pelo mergulho. Na fronteira do espectro também o descuido, uma credulidade diante do saber vivido, uma crença – às vezes suicida – no bem.

A audácia é uma qualidade e atitude rara e, diante do comedimento usual, bem vinda, quando fere menos que engrandece.

Interregno. Foi-se um Rei. Meu Rei de Copas. Um Ricardo Coração de Leão. Diante, e através dele, a forja e o manancial a burilar e alimentar a alma e o corpo.

Sobre o rosto o véu negro da partida. Coração trancado a chave, batendo para manter a vida, músculo pulsante a serviço da existência. Segredos e mistérios guardados. Tudo reunido e longe de olhos e corações outros. Longe de máculas.

Há dois verdes e oblíquos olhos me observando enquanto penso na aula que tenho que preparar. O assunto é árido e sensível. Preciso de uma abordagem não invasiva. Acho agora que por isso Ricardo, o Rei no Exílio, e Sócrates preenchem a sala, ocupam o cenário. Luto.

Ironia e Maiêutica. Há dias rondam o pensamento. As invoco e trago para mais perto. Em que participam deste transe? Reluto. Não quero refletir. A imagem é cinza, tenho seguido cores para aliviar o olhar e refletir é fixar-me no grafite dos dias; o caleidoscópio me seduz, me leva de volta àquela audácia. Nostalgia que machuca.

Quando fui mais feliz?

herbs de Essential Survival

Me dou conta, ainda fugindo da aula a preparar, de que sinto falta de fazer o que quero, quando quero, do meu jeito. Pegar um carro às 2 da manhã e matar saudades. Almoçar sem pressa. Ontem, no Jardim Botânico, colocar as mãos no verde, tocar o orvalho retido da folha úmida… Devaneio outra vez. Dane-se. Esta é a minha poltrona.

Neste momento mesmo em que teclo, penso no filósofo. Para poder abordar é preciso saber. E saber é saborear, é viver. “Ao homem não convinha saber tudo”. O filósofo buscou o anteparo para a vaidade intelectual que afastasse a ilusão e aproximasse a verdade.

Como? Com Ironia. Contradizendo. Refutando. Ainda mais, perguntando, desfazendo e reconstruindo a compreensão através do impasse, do irromper do conceito de um pensamento mais puro.

E deste “parto”, a maiêutica, arte da criação consistente e coerente, o novo, “purificado”.

Ironia e maiêutica, aplicação de uma dialética, toda ela distintamente socrática, afastando ilusões, equívocos e nuances. Reflexão e introspecção, criação fundamentada de conceitos à luz do lógos.

E onde o Sábio Homem entra aqui?

Ele tem estado com os Soberanos. Nas lições, nos encontros, na troca. Onde estou deixando de compreender? Certamente não capto. Porque dói. Quero conhecer para não doer. Mas dói. Não há desconstrução irônica nem geração maiêutica. Estou no escuro. Sou deixada lá. RCLeão me conduzia até a luz, me deixava cegar às vezes, mas experimentou comigo, me ofereceu a fruta, o bago para que eu sentisse o gosto, para que o paladar pudesse recusá-lo. Não somente a visão. Não somente a audição. Mas todos os sentidos, todas as células, poros, pequenas ventosas da lagartixa na parede, a língua bifurcada “tateando”.

Desistam. Não continuem lendo. Nem Hermes. Mas é isso. Porque me negar o Conhecimento? Não existo sem saber. Não respiro sem tocar, saborear, mastigar.

E não consigo prosseguir sem ver…

Não consigo preparar a aula. Mas a lição, essa quase posso captar. Está no ar…

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E no 26º canto do Purgatório de Dante o trovador Arnaut Daniel responde ao narrador:

«… Ara vos prec, per aquela valor / que vos guida al sòm de l’escalina, / sovenha vos a temps de ma dolor»

 

cicuta

 

 

5 comentários sobre “Socrátes? Vivíssimo…

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