N[D]A TUNDRA…(2)

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(1) Em 07 de março de 2016.

Sendo assim, este é um Tempo bom. De descanso. Sua jornada está se aproximando do fim. Breve, optará pela carniça, o fôlego encurtará na proporção do tempo que ainda lhe couber por sobre a tundra e a imensidão gelada. Tempo de ensimesmar.

A Ursa procura, na encosta já esbranquiçando com geadas ocasionais, uma boa gruta que lhe sirva de toca. Inspeciona o local, verifica saídas, profundidade, fareja. Gosta. Demarca. No aperto do clima, com as borrascas mais intensas e frequentes, a ocupa. Está gorda e feliz. Tranquila em seu atávico existir. Instinto e solidão. Coberta, e a salvo do frio, pelo gelo, prepara-se para um novo “sono” reparador. Toda a energia que seu corpanzil retém a eximirá de caçar para sobreviver enquanto o frio imperar em seu território. Viver o Ciclo como a Natureza o apresenta.

Cai a neve lá fora e a Ursa “dorme”.

Do lado de fora, o Ártico – faminto, impiedoso e implacável – Lobo fareja.

(2)

E do Outono Especial…

Fareja e deseja. Ávido por carne rica e sangue quente, a Ursa é, no entanto, um banquete inacessível. Por mais feroz e faminto, não pode com ela. Ainda que debilitada não há como abatê-la sem o risco de uma patada que lhe quebre o pescoço. Não chegar perto é ainda o certo a fazer. Checar saídas livres, rotas de fuga e possíveis armadilhas naturais o manterá vivo. Instinto. O solitário e gigantesco lobo, obstinadamente, escava a entrada da gruta e circula por ali, espalhando seu cheiro e demarcando sua “posse”.

A Ursa, de dentro da caverna, ouve e sem se mexer, enroscada em si mesma, mantém-se atenta aos movimentos do predador paciente e cuidadoso. Mas não há prole dentro da gruta. O Lobo não encontrará repasto por ali.

Movimento e cheiro diferentes fora da caverna a fazem procurar o fundo da gruta; sob grande e compassado fungar, a neve cede e escorre em direção à escarpa semi-nua. O Lobo Ártico também já pressentiu a chegada do visitante. Majestoso, o Grande e Alvo Urso, qual a montanha gelada no horizonte, reina por ali.

E vela, silente e atento, pela velha e decadente Ursa. Um portentoso e inamistoso Guardião. Branco, solitário, feroz. Um Guardião.

Não há predador natural para ursos adultos. Ainda assim, o Grande Branco vela. Mantém-se próximo.

Semanas de ronda e vigília.

Não há alimento. A energia acumulada vai sendo consumida na manutenção da vida dos dois grandes mamíferos, ora separados pelo gelo que fechou a caverna. Os batimentos tênues apenas mantém a vida da fêmea. Seu existir – predatório, reprodutivo, mantenedor do equilíbrio ambiental – se esvai com o avanço deste último “hibernar”. O macho consome um tanto mais; no entanto, por bem maior, não há uma perda crítica. A vida prossegue, em slow motion, branca, pálida nas duas horas em que o sol aparece e escura, cinza, difusa o resto do tempo. Esse tempo que é de espera.

Urso e Ursa seguem existindo em respeito aos ciclos natural e vital.

O Inverno decai. O degelo da Primavera se aproxima. O avistar das duas feras também.

O Lobo, sem despojos do Urso Branco para disputar, afastou-se definitivamente do território. Foi em busca de presas mais fáceis. Lobos também não hibernam. Sua atividade contínua os expõe à fome constante e os impele à caça para manterem-se aquecidos e minimamente saudáveis até que o inverno inclemente finde.

Os grandes Ursos agitam-se. Os ciclos naturais agitam os sistemas vitais, aumentando o pulsar, o arfar, a fome. O degelo inicia o desmanche da fria camada, da abóbada gelada que os cobria, paralisava, impedia. Os músculos expandem-se, distendem-se para o impulso, para o fluir do láctico, para o alongamento. É tão irresistível o apelo vital, é inevitável a pulsão, a fome, o instinto. A entrada da gruta perde a camada de gelo escorrido que a cobria, no pequeno riacho os pedaços de gelo flutuam, na tundra o marrom da queima vai aos poucos surgindo por entre o branco. E os dois gigantes encontram-se finalmente.

A Ursa sai da toca e avista o focinho preto, sente o cheiro do grande macho e fareja. Há algum risco, outro macho, um predador?

Não. Na tundra reina a paz gelada ainda. Venta. Seu cheiro chegou ao grande urso, que se aproxima. Já próximos o suficiente, vêem-se, medem-se, avaliam os riscos. Pois que os há. Sobreviver aqui é a lei.

Branca, magra, faminta. É a hora de repor, inspirar a vida, viver de novo. Antes, assegurar que o Grande Branco não abdique de seu silente e tranquilo estar. Próxima de seu ocaso, a despeito dele no entanto, seu grande e quente corpo não está morto, seu ciclo vital pede, e é tempo de prosseguir com sua existência. O Guardião se aproxima. Enorme, magnífico, mas um predador. Há nele toda a pulsão vital própria dos mamíferos, seus ciclos, sua ferocidade e enorme torque. Avança sobre a Branca, a subjuga, num instintivo movimento de manter-se dominante. Desnecessário. A Branca está pronta para seguir com ele. Ursos não são monogâmicos. Não formam casais para uma vida. Mas para ela, este será o de sua vida. O último.

Unem-se para a estação. Dividem o território. Geram nova prole. Prosseguem no existir, consumando.

E como tudo, em alguns anos, também a Primavera findará.

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https://bemsabemos.wordpress.com/2016/03/07/nda-tundra/

Este post, assim como o que lhe deu origem, é um exercício. Por muito tempo quis me dedicar à veterinária e até desejei trabalhar para a NG só para estar próxima dos animais. Poder observá-los e, de troco, viajar mmuuuiiitttooo. 🙂

A vida me levou por outros caminhos. Mas tenho registros na memória dos tantos livros,  documentários e séries sobre grandes predadores que tive o prazer de ler e assistir. Claro, este não é um post temático. Certo há erros relativos à fisiologia, meio ambiente e comportamento destes magníficos animais. Pelos quais antecipadamente me desculpo.

Mesmo neste singelo post, no entanto, reina a Vida e toda a sua infinita riqueza e propósito.

7 comentários sobre “N[D]A TUNDRA…(2)

  1. Teu post me lembrou de um documentário, “Grizzly Man”, que fala sobre a vida do ambientalista Jonathan Treadwell -um apaixonado pelos ursos- que, certa vez, comecei a assistir e não terminei. Você chegou a ver? A história é muito interessante. Ele, me parece, viveu cerca de dez anos na companhia dos ursos no Alaska. Preciso concluir.

    Gostei imenso do texto Anna. Beijo.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Cris, passei por um período muito solitário e assistia a documentários que me levavam da tundra à savana, em viagens longas. Assisti de tudo um pouco. Gosto muito de felinos também. África. Não à toa sou uma especialista em generalidades… 🙂 Lembro – agora que você mencionou – vagamente de um filme com este tema, mas vou já já ao YTube buscar.
      Obrigada pela visita. Este texto é uma tentativa de apaziguar um momento – acho que distante para você – que é o do aportar de impossibilidades. Meu apreço pelas feras e por contraste minha resignação com o que ainda posso aprisionada nesta janela de tempo e energia. Beijo.

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      1. É esse sim Anna, mas aí ele não está completo. Pesquisei um pouco, porque realmente senti vontade de rever, e achei ele completo em duas partes aqui:

        Inclusive tem a música que o Don Edwards canta em homenagem ao Jonathan que, por sinal, é belíssima:

        https://drive.google.com/file/d/0BxZDOpUCIYmdekZqOU9pbk1pcVk/edit?pref=2&pli=1

        Enfim, a vida sempre acontece. Seja nas janelas que se abrem ou nas que se fecham. Ser feliz é algo que aprendemos com a ciclicidade, e, mesmo nela, o novo está sempre presente, felizmente. Seja feliz Anna. Nada menos que isso, te desejo.

        Beijo.

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          1. Ah, tem um detalhe que não mencionei, a história do Jonathan é trágica, mas creio que, apesar de, ele foi feliz. Foi o caminho que escolheu e certamente conhecia os riscos quando resolveu viver tão próximo àqueles animais selvagens. Foi uma vida intensa. Creio que isso fez tudo valer a pena pra ele. 🙂

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            1. Sim. Eu sei como foi. Não quis mencionar porque não sabia se você ainda se lembrava…
              E, bom, se “tudo vale a pena se a alma…” a riqueza interior é então o prêmio. Aquilo que levamos e trazemos conosco, porque conquistado n’alma. Vivido com intensidade. Aprendido com amor e dor.
              Obrigada por trazer tanto à minha pecinha.
              Bjos.

              Curtido por 1 pessoa

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