Passando a limpo…

18/07/2016, 22:00.

Ah, o tanto que a gente, sem sentir, aprendeu!

Coisas pequeninas, que ficam registradas sem percebermos e que, de repente, como agora, afloram e disparam, qual um gatilho, o diálogo interior que alimenta o processo de criação.

Cheguei há alguns minutos em casa, sentei-me na minha poltrona preferida, sufocando. Há dois dias sem voz – tão óbvio o motivo – chego de um encontro dolorido com minhas feridas, crenças limitantes, ira retida. Estou vindo de uma Jam Session de gala: meus instrumentos, cognição, emoção e a força dos meus mais delirantes ensaios mentais.

Preciso esvaziar meu coração de tudo que passou pela mente e foi processado.

E a primeira coisa que me ocorre é a lembrança de uma amiga que tive. Ela diria: “Anna, puxe uma cadeira…”.

Acomodei-me com este pensamento. O corpo está exausto, não consigo falar sem arranhar-me por dentro, tenho febre. Foram muitas horas de trabalho mental; um dia exaustivo. A atividade me deixou alerta, febril, apesar dos pedidos do corpo por cama, aconchego, descanso.

É muito tarde e tenho poucas horas para dormir. Amanhã tenho que sair muito cedo, mas é certo que a atividade mental deste dia não vai me deixar descansar como preciso.

Ao lembrar da “cadeira”, logo pego minhas anotações, a caneta macia e inicio esta página…

Vou me lembrando, recapitulando: há um mês interrompi – achei que – minha escrita por aqui. Era grande minha dor. Não compreendia – ainda não compreendo – o porquê de ter sido negligenciada. Não conseguia suportar e o isolamento me pareceu um chamamento benéfico, considerando o que estava por vir.

Me despedi. Me expliquei. Estou pronta para, agora, esclarecer o que restou incompreendido e seguir em frente.

Na literatura – e também na música – encontraremos, em profusão, os momentos em que esteve presente. Nas obras épicas, nas sagas, romances, para onde quer que olhemos, lá estarão.

Curtas, longas, doces, emocionadas. Sob o signo da revolta, cínicas, sem qualquer sentimento, inócuas e iníquas também. Presentes nos lábios – às vezes nos corações – e sempre sacadas; existem neste nosso mundo, vitais como a água ou o Sol. Neste vale que habitamos, são a extensão de nossos pensamentos, de nossos desejos, de nossa recorrente queda. Sim, caímos também por elas.

Os heróis, vilões, moças e anciãs; as morenas, as loiras e as grisalhas, como eu; mesmo os monstruosos personagens que nossa fértil imaginação cria, todos, lançam mão delas.

É, devaneando assim, também eu cheguei a ela. E suspirei a minha. Exarei. Sussurrei baixinho. Senhor… Sentada em minha poltrona, rabisco, rabisco; minha mão quisera agora pudesse, qual um passe, qual um johrei, uma benção ou um carinho, suavizar a dor que tenho causado, estancar as hemorragias que provoquei. Pudera eu apagar os danos do último ano. Pai, me ajuda a fazer o que me cabe.

O cansaço faz que eu me acomode melhor. Mas meu desconforto é tanto que pareço não caber no corpo. Me sinto mal.

Me recusei, já mencionei, a acreditar no real parido do virtual. A recusa não impediu a paixão, o olhar embevecido lançado ao espelho, a hipnose do lirismo, do encontro, do oposto, do abismo. Amei. Muito. Amei-os, todos, muito. E por amá-los, estou me debatendo, qual o lambari no puçá.

Sim, pedi. Várias, sentidas, molhadas, soluçadas: que eu nada mais sentisse. Que me deixassem. Desprezassem. Pai, só facilita a minha fuga, só corrobora o meu não merecimento, só me castiga um pouco.

Qual!! Que pai amoroso faz isso? Melhor me fazer reparar, ajustar, lavar a louça suja. Se escolhi, eu, o que tem o Pai a fazer senão deixar que em algum momento eu entenda, aprenda e faça o certo? Ainda assim, prossegui, como agora, pedindo.

Pedi que o amor morresse. Que a mágoa me contaminasse e a dor me impedisse. E como a ironizar meu rogo, minha vontade, meu coração, minhas mãos não foram fortes o suficiente para me afastar. E aí, eu fiz doer. E eu mesma doí. Meu coração ocupado pelos amores, sol e lua, branco e preto, doce e ácido, mar e cachoeira. Dores e flores, solfejos, pios, música e rosnares…

Mas, por favor, sempre muito Amor. Puro Amor. Todo o Amor. Sem falsetes, sem ofensas, sem pecado. Nada de enganos, afrontas, desrespeito. Termos, turnos; sem vileza e sem desleixo. Sem comparações. Facas, bouquets, valsas e folk. Cordas e sopro. Rosa e Amarelo. Uma aquarela sinfônica.

De tanto pedir e de tanto tentar, cheguei aqui.

A vida, este maravilhoso presente, qual fora uma resposta, tratou de resolver. Me neguei, por tanto tempo e tão cegamente, o Amor que no reencontro já não sabia mais como deixá-lo. E machuco. A todos.

Nos últimos meses, minha vida mudou muito. Dificuldades inéditas, sentimentos desconhecidos. Facetas inesperadas e um tanto doídas. Desamor, lições amargas, um registro negativo que me legou uma desconfiança que não existia, uma névoa negra sobre meu olhar. Perdi momentaneamente a capacidade de acreditar no melhor. O olhar do renascimento se enevoou. O germe da dúvida se acomodou e não o quero comigo.

Não posso, não sou capaz. Abdicar. A Lua pelo Sol, o Sul pelo Norte, o Vinho pela Água. Perder parte do meu coração. Remendar, fechar a fenda, colar as partes, recompor o músculo.

Amo todos eles. Muito. De todo o meu coração. Tudo o que deles toca em mim. O entregue, o ofertado, o sorvido, bem sei, nenhuma rusga demole.

De gleba árida a jardim florido. Cores e aromas reconquistados. Famélica, ressequida, enxuta então. Fértil, ávida, humosa. Bardos, príncipes, magos, violeiros, todos. A vida tira agora das minhas mãos, mas ficam no coração. Um alívio para todos eles, certo?

Tenho trilhas a refazer e vida a reorganizar e viver. Sem prazos, sem datas. As fiz e descumpri. Não me culpo por isso – aliás, por nada – pois se melhor não pude fazer é porque melhor não sou. Minhas cercas repousam nas fronteiras do que posso, do que cabe em mim.

Não me queira mal. Eu os amei, a todos, muitíssimo. É justo por isso que tenho que ir. Desta vez não me pouparei de te deixar muitos e calorosos beijos e o perfume da Dama da Noite.

Até querido!

 

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