Depois de muito…

anja

Ela sabia.

Desde sempre soube.
Olhava para o céu. Procurava nele. Tropeçou algumas vezes, nariz para cima, olhar no alto, procurando, procurando…
Sonhava com a fluidez, com o cintilar, com o mental. Só mental. Tão diáfano, leve, sem mácula, mancha, fuligem. Sem desequilíbrios. Uma asa branca, linda, potente. Anjos, Arcanjos, Querubins, Engenheiros Siderais, Cristòs… Tão longe, tão abstrato, tão inacreditável!
Seu olhar continuava mirando. Mais seguro. Mais quentinho. Bem mais luminoso. A dor, lá, é a do outro. É a que poderia aliviar, a que poderia suavizar. Cuidar, guiar, intuir, amparar. Chorar o choro do outro, a dor do outro, a existência da sombra. Lutar pela Luz. Ir aos mundos. Outros, todos. Rever afetos, amigos. E desafetos. Sem as dores, só os amores. E a compaixão. A gratidão. Tantas lições. E a força e potência para ajudar. Dar a mão. Fazer caminhar, fazer desatolar.
Como fizeram para ela e com ela. Como a intuíram. Como a ajudaram. Como a ampararam. Em sua dor terral, em suas feridas reais, em sua caminhada pelo espinheiro que semeou e pelas hortas e pomares que plantou.

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Sabia…
Estava chumbada, presa, impedida. Não, não era ruim; era o necessário. Apropriado. Merecido. Voar, voar, ainda não… No casulo, asas ainda úmidas, força inexistente, pouca luz. Sabia, mas buscava. Na busca, olhar para o alto, só para o alto. Muitos sussurros e muita recusa, um dia seu olhar voltou-se… Ouviu, entendeu, despertou. Não é possível partir antes da hora. O tempo está marcado. Só a trilha, profunda, no vale, na sombra, no pó construiria. Toca, ostra, aconchego da caverna não mais.
Ligações telúricas; prazeres, umidade, sombras e um bocado – o seu – de dor. Foi perambulando pelas veredas, fugindo, desviando, tentando manter ainda o olhar no alto. Mas os sussurros tornaram-se avisos; as visões, sua companhia; os apertos, alertas. Foi capturada. Armadilhas, becos sem saída, inevitabilidades.
Sem o diáfano, sem o luminoso, sem o humoso. E no entanto, real. Sabia e ainda assim foi lembrada. Sabia e por isso foi presenteada. Sabia e não mais pode fugir.

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Lá estava o seu olhar rés do chão. Na sombra, na fuligem, no lodo misturado a sangue, seiva, calor. O etéreo dissipado e o concreto seco, o cimento gelado, a terra batida, a brita no caminho até a porta. Paredes descascadas, portas empenadas e telhas partidas. Goteiras, infiltrações, ranger de janelas. Lá dentro, um bule de café para a exaustão, pão para o oco na barriga. Mãos no cabelo. Braços para a curva da cintura. Boca para a sua nuca, seus olhos, seu pulso. Como desviar o olhar? No etéreo, onde encontrar o calor da mão, o conforto dos dedos entrelaçados, a segurança do peito ofertado? Onde, no diáfano, encontrar o volume, a profundidade, a temperatura? Flutuar e a boca secar? Voar e a perna tremer? Seguir sem mácula e arrepiar, vibrar, sentir? E os sussurros a acalentar: “tanto a aprender antes por aqui”, “não te negue, não o negue, não A negue”. E as vozes dizendo: “veja o reflexo, olhe o canyon, encare as presas, se defenda das garras: viva isso. Seja outra. Construa uma melhor.”
Bom escutar. Bom encarar. Bom tornar. Bom ser.
Afastou o céu, aproximou a terra. De que precisa mais. De que não quer abrir mão. Sabia então que o Céu existe. Sabe mais agora. Ele está lá. Ele vai esperar. A receberá quando seu olhar puder sustentar-se no alto. Até lá, certo, vai acompanhar, observar, lamentar suas quedas, seus equívocos, seu parco critério e lamentar. Mas ainda assim, por ali vai ficar e sempre estará…
E ela, sabendo, vai buscar o calor, a cor, a mão na mão, o peito no peito, a dobra, a seiva, a flor e o amor. O Amor fica para quando for capaz. E ela bem sabe, ainda não pode. Pobre, parca, pouca.

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