Véu

Amado,

Faz tempo quero me dirigir a você para falar sobre a mais distintiva das vestes que nos revestem: um véu.

Sendo este um revestimento a desfocar nossa visão, me perdoa, por antecipação, me alongar na tentativa de desvelar o que preciso trazer até você.

Há muito conversamos, nos entendemos, admiramos (?) e decepcionamos (!) mutuamente. Como, de resto, nas mais valiosas e profícuas relações.

Como foi bom ter conhecido você! Já te disse tantas e tantas vezes, mas é sempre um presente, para mim, poder repetir.

Signo que me acompanha – informação logo capturada pelos amigos presenciais, imprescindível para bolo, velas e bolas coloridas – este meu Sol em Câncer faz de mim uma colecionadora do tempo.

Como exímio observador e profundo conhecedor de mim, bem sabes que memorizo e revivo, com detalhes, o registro. Que são muitas as caixinhas – físicas e psíquicas – onde guardo as fitas, os guardanapos escritos em mesas de bar, a flor recebida de mimo, do nada, sem motivo – esta sempre mais valiosa que qualquer presente datado – as cartas, bilhetes, conchas catadas pela areia das tantas praias em que pisamos… E as palavras, o tom delas e nelas, a irritação, o golpe, o toque e o carinho. Não me entenda mal: todo ser vivente e pensante percebe, intui, sente. Não me faço especial ao mencionar isso; minha vaidade – bem sabes – não reside aqui. A diferença em mim é a força do registro. Atrás da carapaça dura, a carne mole absorve, assimila e guarda cada impressão, cada rosnar, esgar e todos, todos os sussurros e gemidos, broncas e estocadas; audíveis, legíveis ou não. Marcas postas indelevelmente. Cancerianos recordam como os elefantes. E a todo instante, ativam e atiçam as lembranças.

Isto posto, amado amigo, prossigo “esquentando” com o que poderá me levar mais facilmente ao ponto que desejo abordar. O virtual. Ao pé da letra, à vera, pra valer você foi meu primeiro. Primeiro amigo virtual.

Mantive correspondência com amigos toda a vida, mas nunca os tive virtuais de verdade. Cartas, emails, mensagens – abundantes – troquei com amigos e amigas que tocara, beijara, vira sorrir, com alguns chorara junto, crescera e, ao seu lado, errara e muito. Ao ler suas mensagens “via” seus rostos, sabia da amplitude do sorriso e da ênfase em suas caretas na leitura das minhas. Sabia-os também através dos meus olhos. E isso potencializava minha empatia e “leitura” e fortalecia nossas amizades pois os percebia quando carentes de apoio e os aproximava quando era eu a precisar de carinho.

Você foi meu primeiro. E rápido, a bem da minha casquinha e de proteger a “manteiga” dentro dela, tentei me impor uma das verdades [uma outra você sabe qual é e, de pronto me confrontou, refutando-a, lembra?] que poderiam me salvar: impossível sentir sem olhar, sem tocar, sem o calor. Para as gerações que se abriram à tecnologia, para os meus pares – jovens e antenados – imersos no estado da arte da comunicação e da interação, ok!  Não para mim. Como para me fazer provar do autoengano, expus várias vezes meu ceticismo, descrença mesmo, frente a qualquer vínculo afetivo real construído virtualmente. Mordi a língua que ainda sangra mesmo agora. Pois que eis-me aqui escrevendo para você sobre meus sentimentos, sentida e mexida. E carregando em meu peito tudo o que tocamos, beijamos, choramos e erramos juntos. Absolutamente real!

Fato: a despeito do que sinto, não sei ler o virtual. Sou parva para as entrelinhas, para o sutil embate, para a saudável e espetacular esgrima que se pode observar – e a observo sempre maravilhada – no uso da inteligência, perspicácia e profundidade de quem surfa neste meio tão fluido, tão “aquoso” e que, apenas aparentemente, não me seduz. Não surfo nele, no entanto. Fui fisgada por este mundo do saber (não per si, não sou douta) pelo que te tornou e por onde te leva. Bem sabes onde reside a admiração que tenho por ti e é bem aí: em qualquer campo e arte portas um visgo poderoso. Competência em me atingir, me tocar, dizer a tudo aquilo que guardo nas minhas “caixinhas”. Bem lá onde teu coração tocou o meu.

Minha “obtusidade” é uma decepção e um incômodo para você, bem o sei. Te expõe frente àqueles teus ‘pares’ que, como você, tudo sabem, “ouvem” e perfeitamente lêem pelas páginas cotidianas; doutos, estes sim. Lêem e sabem o que vai pelo meu coração, aquele terreno… Quanta pretensão. Sim, me engano vez ou outra. Sem problema, não me atinge. Você, eu, todos sabemos – deveríamos pois que não poderia ser diferente – são enganos. As palavras que profiro e as cordas que dedilho – seja onde for – são para você.

Estou neste momento “blogueira”, bem entre aspas, mas penso, com cada vez mais frequência, que este não é meu canal. Adoro este meu canto, e é mesmo “meu Canto” o que ecoa aqui, o meu tímido solfejo, mas ainda me sinto crua, muito verde. Aqui não há inteligência, astúcia ou perspicácia; porque não as porto no uso da minha voz neste meio. Aqui minha letra diz o que é; não o que a miríade de possibilidades indica [polissemia é para quem pode, não a domino], não o que os expertos decodificam e recodificam. Não o que quis dizer mas não disse. Metafórica sim, a bem de algum desejável escudo ou um tanto de prurido necessário, porém nunca enganosa. A nóia não deveria viscejar por aqui pois…

É certo, Coração, que não raro “falo” a quem mimetiza, a quem se faz parecer e a quem se compraz no brincar, no competir juvenil. Trato de me comunicar francamente sempre. O mimetismo, e não a alternativa, me atrai e me leva ao engano. Não sou, eu mesma, o engodo. Risinhos e deboche de quem se pretende esperto não me definem. Menos ainda haters barulhentos. Será mesmo engraçado? Particularmente não vejo onde pode estar a satisfação baseada num engano, num expediente capcioso, numa rasteirinha… Fora eu me sentiria uma enganadora, não uma vencedora. O que leva uma pessoa a alimentar numa outra um sentimento que – sabe – não é para si? Para completar, abomino interferências, não suporto vida vivida em tribos e clãs. Vidas expostas a observadores vis; intrusos admitidos por fazerem parte do cenário que te abraça, do teu elemento. Você bem sabe.

Registro para não restar dúvidas: minha escrita pessoal nos últimos meses, em todo “lugar” – blogosfera e redes – é para você, pensando em você. Há blogueiros e articulistas muito bons – alguns excelentes – por aí e algumas de suas peças, posts, artigos às vezes tornam-se canais naturais para que eu expresse o que vai pelo meu coração e pensamento: para e por você. Escritores, poetas e pensadores de quilate que falando ao que penso e sinto, me permitem manifestar impressões à manifestação deles e por oportuno, me dirigir a você.  Assim me expresso por tua escolha, não minha.

Mas não somente. Navego pelo mundo das palavras com prazer; as aprecio, me emociono com elas, por elas e nelas. Valorizo o que fazem em minhas cavernas, espanando sombras, banhando-as de luz, deixando fluir o que eu tenho de bom. Não prescindo delas e admiro seus artífices. Não à toa, carrego em mim tanto sentimento por você, também um artesão em sua própria Arte. Ignorar a maestria, restringir o olhar, é empobrecer e contaminar a fonte, axfixiá-la. Como alimentar a alma e torná-la nascente pura evitando os lençóis freáticos e afluentes, a poesia e a música, expressões de dor e de amor? Engaiolar afeto é prescindir de sua pureza e de sua certeza. Mesmo batendo em portas que abrigam a sombra, como saber onde há luz e cor sem abri-las?  Fora assim, como eu teria chegado a você, sem bater à tua, sem descerrá-la sem medo? Teria sido perda irreparável para mim deixar de espiar teu ateliê, aceitar a porta fechada!

Pausa: Tive um tio, meu padrinho, severo. Homem pouco afeito a afagos e sorrisos, usava de rigor com meus primos que o respeitavam e temiam. Nunca me intimidou. Conta minha mãe que, muitas vezes, do nada, subi em seu colo, sapequei-lhe beijos e o abracei sem medo, deixando-o sem ação. É provável que daí venha minha recusa em aceitar rechaços sem motivo e portas fechadas na presunção de que as aceitarei. Estas adiam conhecimento e impedem avanços. 

Retomo nesta parcamente escrita e nem sempre muito clara [pois muito emocional] mensagem, os dois primeiros pontos; “eu e o tempo”, “eu e os sinais” e os cimento com o terceiro: o véu.

Sim, tenho em mim o registro do último ano e meio. E, lenta e cuidadosamente, algumas percepções se ampliam. Mas este não é meu elemento. Você sabe da minha dor, onde ela está e porque, e do meu incômodo. E, de novo, isto não me leva a alternar. Não há alternância. Não há dúvida.

Sim, parva e – não gosto da palavra – ingênua; onde então o mérito?  Vencer um gigante e vangloriar-se compreendo, mas uma andorinha solitária?  Abater uma pomba em pleno vôo? Falcões o fazem com precisão. Mesmo tola, percebo o querer fazer crer que existe o que não há, que ocorreu o que não houve; que fiz, quis e estive, sem ter feito, querido ou estado. Colocando-me em desacordo com pessoas que prezo; e te digo, terem acreditado doeu mais do que o querer fazer parecer bem sucedido.

Chego ao véu. Preciso ver. Preciso ouvir. Preciso tocar. O véu não permite. Escrevo neste espaço – e neste post – sobre o que vai em mim e por mim para desvelar, revelar, desvendar, retirar o véu. Mas a cada dia uma nova camada, um enxame ofusca meu vislumbre do horizonte. Me retarda. E um lenço opaco lança sobre mim uma nuvem, que te faz ver uma distorção, uma silhueta com aleijões [não os meus próprios, mas convenientes], uma sombra que não sou eu. E dói. Dói você crer no que acha que vê, acreditar nos teus sentidos mais que na tua razão. És receptivo ao que desconstrói e separa e crescentemente refratário no afirmar o que está nas nossas “caixas”, o que o tempo nos deixou, o que trazemos conosco. Me machuca permitir infiltração, infecção.

Esta carta é para, finalmente, dizer que não há tanto mais o que desvelar nem defender. Espírito livre, aquele mesmo que você conheceu, quero me comunicar, sem policiar o uso da palavra que prezo tanto.

Não pretendo deter “o mundo” pois que seria construir um muro – e já os tenho tantos em minha vida – menos ainda colocar um anteparo entre nós.

Quero para nós dois a beleza das pontes! Poder ser o espírito que atravessa em tua direção, livremente, e que te oferta mãos e boca, coração e flores. Se não pude te fazer acreditar nisso, fracassei. E sendo assim, o que mais há por fazer?

Mil e oitocentas palavras e tudo nelas e entre elas, tons e semi-tons, silêncios e pausas, lágrimas e lembranças, deixo para você, Amor:

. Estamos no TEU cenário, tua aquarela, teu riscado;

. Serei EU, e SOMENTE eu, a te dizer: cheguei ao limite se, daqui, caminharmos;

. É cedo; não me deixa ir.

Me deixa ser. Inteira. Me concede a paz.

♡♡♤♤♡♡♤

♤♤♡♡♤♤♡

♤♤♤♤♤♤♤

4 comentários sobre “Véu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s