Três Felinos e uma Bailarina

Hoje trago um texto que aprecio bastante; os protagonistas falam direto ao meu coração: gatos. Retratos que eu mesma poderia ter emoldurado mas que Bia tratou com a nítida percepção do temperamento de seus bichanos. Leitura fácil quando se banha o olhar no mais puro amor.

Bia é uma amiga do coração, quase uma irmã. Nos complementamos e nos diferenciamos na riqueza de nossas percepções e escolhas. Aprecio seus textos pois que os poderia ter escrito e jamais o faria; me falta a ousadia e me sobra o orgulho. Um espírito livre que me custa alcançar mas que alimenta minha íntima fome de liberdade.

Nesta beleza escrita por Nude, o conflito. E a renúncia. E nisto, nos irmanamos. Amar impingindo dor não apraz. Melhor libertar que mutilar. Melhor cuidar do jardim…

Viver e deixar viver. A plena e mais dolorosa sabedoria.

Espero que vocês apreciem tanto quanto eu.


Tzar & Pi

“E em 1722, o senado aclama-o Imperador de todas as Rússias”.  Pedro I, da Rússia, em verbete da Wikipedia.

“Acima de tudo nunca pare de acreditar”.  As aventuras de Pi, o filme.

“Pés, para que os quero, se tenho asas para voar?”  Frida Kahlo e, por empréstimo, A Bailarina [também] Manca


Tal qual um Imperador, russo ou não, Tzar é altivo e não capitula nem negocia posições. Não regateia. E tem minha admiração por isso. É o que é. Amorável e cruel, no que uma coisa tangencia a outra. Garras e dentes, mensageiro de uma doce dor imposta por sua fúria desmedida, muitas vezes desproporcional à minha provocação.

Esta introdução elogiosa – sim, eu o admiro mesmo agora e talvez mais – é o mote para trazer a solução para o dilema: Tzar ou Pi; quem me acompanharia na mudança para a Casa Nova.

Levei-o a visitar o novo espaço, a ver se lhe agradaria compartilhar comigo a nova casa. Tzar foi  felinamente afirmativo: “não quero ir com você Bailarina.” Ao adentrar comigo o espaço que lhe destinei na minha nova vida, virou a cara: bem ao feitio dos gatos, quem os tem sabe do que estou falando. Desdém, enfado – pouco espaço para brincar, pouca liberdade para ir em busca de gatas livres, selvagens e ainda ter que de vez em quando me agradar – e aquele ar blasé que nos gatos torna-se irresistível mas definitivo de tão ferino.

Resolveu o problema. Conversei com o “Clã”, e a turma, feliz, concordou em mantê-lo na Casa Antiga, vez que ele sempre foi o seu preferido.  Pi é por demais rebelde e barulhento para a turma. Tzar fits better.

Vai meu gatinho querido. Fica onde te seja mais confortável. Vou ficar de longe te olhando, de vez em quando saber como vai tua saúde, se os meninos têm cuidado de você, se tem colocado o colírio recomendado pelo veterinário, te aplicado as vacinas – há muitas gatas vadias em suas andanças e nem todas vacinadas, são de rua e não quero te ver doente. Amo você gatinho frajola e só quero que fiques confortável e aquecido.

Ao perceber Tzar em seu desconforto com a mudança, não pude deixar de analogamente pensar se meu desejo de mantê-lo não acabaria impondo ao meu amado tigrinho, o gato amarelo Pi, também uma mudança desnecessária e dolorosa. Puro egoísmo querer mantê-los comigo privando-os um do outro!! Olhando Tzar confortável em seu elemento, nos espaços que costuma ocupar, todos marcados com suas garras e impregnados do seu cheiro, percebi que não poderia subtrair este mesmo conforto a Pi. Sangrando de dor mas com a consciência tranquila decidi: Pi fica com Tzar e com seus folguedos, suas idiossincrasias, seu dínamo inesgotável e imperiosa vontade. Pi ficou exultante ao reencontrar seu companheiro de jogos e disputas no retorno à Casa; lá é o seu lugar também. E então, tive certeza: dor maior seria tirá-los de sua casa, de seu conforto, de seus brinquedos, de seu modus vivendi. Felizmente, o Clã não pôs objeção a que os bichanos permanecessem juntos: “quem cuida de um …”, “sempre estiveram juntos…”, foi o que me disseram. Pi é adorável e rapidamente (re)conquistará corações refratários e ressabiados e ampliará simpatias. Não lhe faltará Amor, é certo!

Eu, de minha parte, faço minha mudança com a tranquilidade de quem ama profunda e intensamente essas duas jóias raras e brutas que abriguei – e abrigarei – por muito tempo em meu coração. Certa de que estou dando aos amados aquilo de que eles precisam: liberdade para tocar suas vidinhas sem a dor da mudança só para me fazerem a vontade de tê-los ao meu lado. Tudo que passei por Amor já me mostrou: nem sempre é de nós que o outro precisa.
Meus dois amores. Juntos. Felizes. O que mais eu poderia desejar…

Fechei a caixa e estou indo; qualquer hora faço uma visita. Levo comigo Sofia, a gatinha alva.  Tiro umas férias – estou exaurida, mutilada, quase morta – mas  retorno em algumas semanas, já na casa nova.


Autora: Bia Nude
In Scribe
09.10.15

http://wescribe.co/t/tzar-pi

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See, I Love You !!!!

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