Ponto de Partida

“Nem tudo acaba qdo na vdd aparenta acabar”

“Tudo continua mesmo que nao vejamos”

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E o que é o fim?

Detesto despedidas. Abomino. Encerro rapidamente, sem adeus. Um “até”, um “qualquer hora nos…”. Medidas cautelares para dores inevitáveis.

Oscilações ? Sim.
Reminiscências? Também.
Marcas? São.

Caminhei por sobre estradas sinuosas. Muitas curvas, desníveis e alguns desfiladeiros. Aqueles, em que sem poder voltar, somos acompanhados de cima e por olhos invisíveis.

Cautelosa, chegava às clareiras, montava acampamento e ruminava o que vira, ouvira e apenas vislumbrara… Refeita, tomava novo rumo e prosseguia. Mas, ao deixar canyons e veredas, mesmo quando ilesa, doía em minh’alma o término da viagem. Deixar para trás a paisagem conhecida, os trapos de vestir, os cheiros, topografia, regime de ventos e chuvas. Tudo tão familiar, conhecido.

Não, claro que em nada diferente de todos e cada um em suas jornadas. Nenhum ineditismo ou originalidade; o comum, o prosaico. Segurança, bem sabemos, é necessidade básica.

Então afinal qual é o ponto aqui? De partida, de chegada… Há um ponto?

Desabafar sobre obviedades? Hum, isto vai cansar e afastar os visitantes…

É, vai. Talvez. Mas preciso ir um pouco além. E não para que alguém se “veja” – um plus, um prêmio aos escribas – mas para ordenar e fechar impressões e um possível e insuspeito balanço.

Viagens há, curtas ou longas, das e nas quais intuímos um período de descanso. Fluídas, leves e quase anestesiantes. Uma rotina repousante, um fluir inodoro e insosso a nos confortar; ainda que as vejamos coloridas, frescas, revigorantes e agitadas. Aquelas que a exemplo do Outono – há um tanto iniciado by the way – nos possibilitam acumular. Víveres, gordura, proteção. Sim, pois que a chegada do Inverno é inexorável; quer venha ameno ou letal, ele chegará. Outonos fartos são, deste ângulo, uma oportunidade.

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São os de jornadas leves, aprendizados por observação, pela rotina e repetição, dias que se sucedem, erros e equívocos notados e corrigidos, reparos feitos. Inexistem a destruição, o abandono, a ofensa e a dor sem consolo. Parecem estar lá, mas são ensaios, às vezes lembranças, que nos recusamos a reconhecer. Reparamos, ajustamos e tudo flui ininterruptamente.

Neles estivemos lidando com a continuidade, com o reforço, com o crônico. O fluir e refluir do conhecido, do familiar, do já vivido. Aprimorar, aperfeiçoar e caminhar, amparando e amparados.

Eis a viagem leve. O passeio.

É aqui, perguntamos então já impacientes, que nem tudo acaba quando aparenta acabar?

A resposta é: Não. Não é aqui.

Aqui, o que finda foi reafirmação, foi confirmação, foi tarefa.

Quando nos deparamos com o Outono árido, aparentemente estéril, estamos aí sim, me parece, diante da conquista, da prova, do imponderável.

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Diante da construção, da partilha, da consumação do haurido e ofertado pelos Outonos vermelhos e folhosos. Recarregados, e fartos de certezas, nos lançamos às veredas pedregosas, aos pomares abandonados, à terra coberta de sal e cinzas. Pois é lá que encontraremos a mais doce e saborosa fruta, o mel e a ambrosia a saciar a sede camuflada e a fome das entranhas. É lá que com o ancinho do afeto faremos o preparo do nosso chão, com as mãos arrancaremos a erva daninha espaçosa e oportunista, ocupante das brechas que a dor do abandono, da saudade e da solidão fez surgir, fez alargar e aprofundar.

No solo do jardim ressequido, nas copas do pomar abandonado, na promessa ao avistar da vereda a gleba que convida, farfalha na alma a fartura pressentida, a alegria sentida no cheiro da fruta ainda semente, o sabor da busca terminada.

Lá está o torrão visto desde os nossos sonhos; a brisa que agita o cabelo é fria – o Inverno chega! – mas o coração se aquece diante da visão. Um frio na barriga, uma certeza nas incertezas todas e tolas, a invencível e insuperável vontade de estar, mesmo na borrasca, naquelas primeiras nevascas que sabemos virão; em tudo – no cheiro, no gosto, no toque – a certeza, que faz estremecer, de que há ali mais do que uma estalagem para passar o frio, mais do que uma temporada.

Há ali a gleba do retorno, a casa, um lar há muito erguido. Destruído? Abandonado? Invadido? Quem pode saber… O saber possível é o de hoje: se destruído, reconstruir. Se abandonado, habitar. Se invadido, fortificar. E é esse saber que nos leva ao “nem tudo acaba quando aparenta”… E a persistir. E a insistir.

Cansados? Não percebo o tempo quando escrevo… Talvez porque flui o que vem de outro tempo.

Eis o Outono. Este Outono. Cumpri um ciclo – Outono, Inverno, Primavera, Verão – intenso. Uma viagem típica. Houve nela o que as viagens nos proporcionam de valioso: olhar-mo-nos. Esta a parte doída. Esta a preciosa pérola na ostra. Formada na aspereza; os folguedos no caminho aliviaram e alimentaram a viajante, tornaram tudo mais atraente, mais palatável.

Hora de trocar a pele, descamar, crescer. Ter vislumbrado paisagens e peregrinos, ter reacessado o sabido e o vivido “esquecidos”, ter, jogando a mochila ao chão, chegado ao destino com os olhos abertos e a alma – por tanto hibernando – desperta: eis aí o tanto ganho para renascer e abraçar a vereda, a estrada, o caminho real.

Há quem diga que o desvio prepara, oxigena, alivia mas que é, sempre e apenas, um dos pedaços do caminho. Pode-se tomar atalhos, parar para um sorvete, pegar um cineminha, e, às vezes, até fazer filhos mas…  Por mais intenso tenha sido, eis que à frente estará a Estrada. Eis que esperando, jardim e pomar por encontrar e cuidar. Eis que a nos esperar, o infindo.

Eis aqui este Outono. E eis-me aqui, vereda percorrida, diante da porteira. Avisto a casa, vasos secos de gerânios vermelhos (os há de outra cor?) nas gelosias, bichanos na varanda tomando sol, lá longe os campos por cuidar. Jardim e Pomar silenciosos, só a brisa fria. Um convite.

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Avanço. Vem até meus pés, me recepcionar, a gata branca de olhar carente.

Mas é meu o olhar que busca…

Eis que então tudo continua, mesmo que não vejamos.

E não acaba o que não acabará…

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