Esperança

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A Esperança e o Nada, por Ernesto Sabato

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“Felizmente (pensava) o homem não é feito só de desespero mas de fé e esperança; não só de morte mas também de anseio de vida; tampouco unicamente de solidão mas também de momentos de comunhão e amor. Porque se prevalecesse o desespero, todos nos deixaríamos morrer ou nos mataríamos, e isso não é de maneira nenhuma o que acontece. O que demonstrava, a seu juízo, a pouca importância da razão, já que não é razoável manter esperanças neste mundo em que vivemos. Nossa razão, nossa inteligência, constantemente nos estão provando que este mundo é atroz, motivo pelo qual a razão é aniquiladora e conduz ao ceticismo, ao cinismo e finalmente à aniquilação. Mas, por sorte, o homem não é quase nunca um ser razoável, e por isso a esperança renasce uma e outra vez em meio das calamidades. E este mesmo renascer de algo tão disparatado, tão desprovido de todo fundamento, é a prova de que o homem não é um ser racional. E assim, tão só os terremotos arrasam uma vasta região do Japão ou do Chile; uma gigantesca inundação liquida a centenas de milhares de chineses na região do Yang Tsé; uma guerra cruel e, para a imensa maioria das vítimas, sem sentido, como a Guerra dos Trinta Anos, mutilou e torturou, assassinou e violou, incendiou e arrasou a mulheres, crianças e povos, já os sobreviventes, os que apesar de tudo assistiram, espantados e impotentes, a essas calamidades da natureza ou dos homens, esses mesmos seres que naqueles momentos de desespero pensaram que nunca mais queriam viver e que jamais reconstruiriam suas vidas nem poderiam reconstrui-las ainda que quisessem, esses mesmos homens e mulheres (sobretudo mulheres, porque a mulher é a própria vida e a terra mãe, a que jamais perde um último resto de esperança), esses precários seres humanos já começam de novo, como formiguinhas tontas mas heróicas, a levantar seu pequeno mundo de todos os dias: mundo pequeno, é certo, mas por isso mesmo mais comovedor. De modo que não eram as idéias que salvavam o mundo, nem o intelecto nem a razão, senão o contrário: aquelas insensatas esperanças dos homens, sua fúria persistente para sobreviver, sua ânsia de respirar enquanto seja possível, seu pequeno, teimoso e grotesco heroísmo de todos os dias frente ao infortúnio. E se a angústia é a experiência do Nada, algo assim como a prova ontológica do Nada, não seria a esperança a prova de um Sentido Oculto da Existência, algo pelo qual vale a pena lutar? E sendo a esperança mais poderosa que a angústia (já que sempre triunfa sobre ela, porque se não todos nos suicidaríamos), não seria esse Sentido Oculto mais verdadeiro, por dizer assim, que o famoso Nada?”

Trecho de “Sobre heróis e tumbas”

Postado por Cris Kelvin
GGN, Multimídia do Dia
sab, 19/12/2015 – 07:03

http://jornalggn.com.br/noticia/multimidia-do-dia-822

2 comentários sobre “Esperança

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    Curtido por 1 pessoa

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