E ao Largo, o desaparecido.

Este post é uma homenagem, saudosa, ao meu primeiro Amigo no GGN.

Artesão das imagens, um apreciador, assim como eu, de músicas tocantes, tristes; mas muito além, um conhecedor. Creio ter sido esta nossa mais aparente identificação: um tanto do meu gosto musical coaduna com o dele. Registre-se em seu favor: gosto de pop e nunca percebi nele uma pontinha sequer de entusiasmo.

Seu gosto é muitíssimo mais refinado do que o meu. Não somente na música, como de resto em todas as manifestações artísticas e culturais, meu conhecimento é praticamente inexistente frente ao dele.

Sim, uma Amizade, portanto, que me deu muito mais do que eu tinha a oferecer.

Me apresentou a um mundo todo novo por lá: poesia, música, literatura e, valioso, um tanto – bastante – dos meandros da vida. Muito de sua sabedoria forjada na experiência. Um Adorado Camarada.

Rubem Braga, por quem passei sem alarde quando nos bancos escolares, tornou-se uma referência depois de Humberto ter-me apresentado à crônica que trago aqui. Volta e meia, recorro às crônicas do autor para refletir sobre assuntos que desejo desenvolver, ou simplesmente as posto para deleite geral, como já fiz antes.

No último ano e meio, outras leituras, outros autores e sítios, outras audições e suas fotos e percepções. Todas trazidas por sua sensibilidade, tão conectada à minha em alguns aspectos…

Esta belíssima, triste porém terna e calorosa crônica me causou enorme impacto. Criei um post anterior para ela (em meu Blog no GGN: Eu, em outras glebas.) e a revisit(o)ei inúmeras vezes. Incrustada que está no meu coração, para sempre.

Está registrada também no Blog do Humberto (créditos ao final deste post).

Façam-lhe uma visita. Seu blog proporciona uma viagem plástica, visual e silenciosa, plácida. Silente. Excelente para introspecção e um momento de reflexão longe do alarido e velocidade dos nossos dias. As fotografias são muito bonitas, de grande sensibilidade e expressão. Quando as vi, me encantei.

Espero que ele aprecie este post na mesma medida do meu encantamento.

Para você Humberto.

Anna.

♤♤♤♤♤

largo-dos-ac3a7orianos-visto-sob-o-viaduto-foto52
De Humberto Cavalcanti. Largo dos Açorianos visto sob o viaduto, Porto Alegre, RS.

 

O desaparecido

Rubem Braga

Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.

Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagem para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me ao espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.

Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

– Rubem Braga, abril, 1959
‘in’  “200 crônicas escolhidas”

♤♤♤♤♤

Foto: Acervo de Humberto Cavalcanti

https://humbertohpc.wordpress.com

Rubem Braga: ver também em “A Traição das Elegantes”, Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1969, pág. 112.

♤♤♤♤♤

PS: a Foto de Destaque do post, devido a configurações internas do Blog, apresenta distorção de resolução, dependendo do gadget em que é visualizada. Em meu SPhone, apresenta-se como a original. Mas verificando no tablet e no notebook realmente pareceu haver um certo embaçamento. O mesmo pode acontecer com a foto interna. Agradeço o alerta feito pelo autor da peça a quem peço desculpas por não ter percebido antes.

3 comentários sobre “E ao Largo, o desaparecido.

  1. Anna, quão longos são os dias e as noites. Quão curtos são os dias e as noites. Quão curta é a vida. Costumo escrever que a vida é um sopro. Hoje aqui, amanhã não mais.
    Aproveitar de algum modo os caminhos, estradas, veredas, picadas é tão fácil, mas também é tão difícil!
    Acreditar na sinceridade das pessoas é sempre melhor do que duvidar, desacreditar de tudo. Ainda que os tombos nos ralem os tecidos internos de forma muito menos cicatrizável do que os ralados de joelhos e cotovelos.
    Dores de nossas vidas nos atiram nas cordas e, muitas vezes, não conseguem nos tirar mais de lá. É meio assim, acho.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Odonir,

      reafirmo: sou pró-reconciliação, pró-perdão, pró-amor sempre.

      Mas dói.

      Erros recorrentes são oportunidades, um punhado delas, para um dia finalmente compreendermos a lição e não os repetirmos.

      O livre arbítrio nos faculta a possibilidade, não a necessidade, do erro.

      Ocasiões há em que a lição é: você ainda não está pronta para encarar isto.

      Atitudes revelam sentimentos.

      Livre à revelia. Nem uma palavra: dói.

      Acho, é meio assim.

      Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s