Soledad do Recife

Postado originalmente no GGN, em 05/02/15, sob o título “Impressões de Soledad do Recife”. Aqui com pequenas alterações em fotos e vídeos. Original com comentários em: http://jornalggn.com.br/blog/anna-dutra/impressoes-de-soledad-do-recife

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“Sol”

Este post foi gestado num singelo cadinho. Tento reproduzir nele a alquimia de impressões, emoções e reminiscências que a leitura do livro Soledad no Recife me proporcionou.

Ele é, antes e acima de tudo, dedicado a Soledad. Mulher de cuja rica e significante existência tomei conhecimento através dos artigos publicados por Urariano Mota – autor do livro – neste GGN.

Este é um momento especial. Desde que pela primeira vez li sobre Soledad, fixou-se em mim uma forte impressão sobre esta mulher, vitimada pelo regime de Exceção que governava o Brasil em 1972. Nada de inusitado em sua “queda”, uma vez que muitos brasileiros foram vitimados – assim como suas famílias e amigos – pela violência e crueldade da suspensão de direitos e exacerbação da opressão. Mas absolutamente instigantes as circunstâncias e os “personagens” envolvidos nesta página degradante da nossa história. Foi este o arpão a me trespassar, levando-me pela curiosidade às particularidades do enredo que os artigos de Urariano revelavam.

Fiz alguns ligeiros comentários nos artigos sobre Soledad (disponíveis no Blog de Urariano; recomendo a leitura). Lembro de ter comentado também no post “Mulheres de Sol” que li atraída pela chamada pensando tratar-se de mais um post sobre Ela… Não era, mas poderia ter sido. E este foi mais um evento a me indicar que eu queria saber mais.

Minha crescente curiosidade foi alimentada pela carga afetiva, um quê de paixão, um transbordamento de sentimentos do autor para com sua musa, mesmo com a ressalva de que não haviam sido amantes e que tratava-se de um livro de ficção histórica. À medida que outras informações buscava sobre Ela, minha admiração e respeito pelo sentimento expresso por Soledad reverberava em minha sensibilidade. Sou uma romântica totalmente deslocada no tempo, reconheço.

Fui “levada” à obra. Localizei Soledad nas prateleiras virtuais e a trouxe para casa. Sentada em minha poltrona, nas silenciosas madrugadas livres do alarido das férias, das demandas domésticas e familiares, sorvi todas as paixões – e não somente as românticas – que limpidamente transbordavam do relato. Há emoções na narrativa, por um instante palpáveis, num vislumbre, ao alcance das mãos, por sua intensidade e verossimilhança.

Ressalto minha condição de leiga – no domínio das técnicas de uso e manejo das palavras – e agradeço a confiança de Urariano ao me permitir, e justo por isso me incentivar, a dedicar tempo ao registro das minhas despretensiosas e parciais impressões. Estou ciente de que não é possível alcançar, nem de longe, o universo interior dos poetas. Urariano foi menestrel a cantar, em prosa, verso, paixão, fogo e sangue, a brava Soledad; aos meus olhos uma breve epifania “vivida” ao lado de sua musa, mas sempre uma visão parcial, contaminada pelo que trago de minha própria história e dos menestréis que encontrei em minha trajetória.

Logo, quaisquer referências a mim mesma neste registro intentam fazer que o leitor compreenda o porque desta homenagem. Esta mulher, sua estatura, suavidade e coragem me atingiram a ponto de me impelir à temerária, ousada de fato, vontade de escrever a respeito de uma realidade que não presenciei – em 1972 eu era uma menina – e que tão contundente efeito deixou no autor, cidadão e homem.

Antes de irmos à obra, te congratulo mais uma vez, Urariano, e te afirmo: estivesse Soledad aqui, “tocaria tuas mãos e o incêndio se daria”. Mesmo 37 anos depois, as brasas ainda arderiam.

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Nascida em 65, àquela época eu brincava com os meninos e lia ainda muito pouco frente ao que viria depois. Não fui de bonecas. Estava sempre com livros e jogos, compenetrada, introvertida. Muito pouco daqueles anos cinzentos, plúmbeos me alcançou em minha formação. Não há traços – creio eu – daquele período, daquela tensão em mim. Quando cheguei à Universidade, em 1982-3, a leitura d’Os Carbonários suscitou uma leve preocupação social, reforçou o pensamento libertário, me levou a outras reflexões, mas não fui uma jovem de “DA”, nem de movimento estudantil. A Ditadura havia sido uma passagem suave na minha vida. Eu sabia que muita dor fora provocada, e muitas chagas restaram dolorosamente abertas e purgando em famílias atingidas; sabia da ceifa de lideranças, exílio, tortura; sabia de seus efeitos sobre as artes, a cultura, as questões mais materiais; mas vivenciar, não. Não fui atingida num nível profundo. Não tenho cicatrizes. Foi uma época de muito aprendizado; na minha casa discutíamos política com liberdade, mas tocávamos a vida com relativa tranquilidade.

Por isso, penso eu, Soledad no Recife me atingiu fortemente, num primeiro momento, em sua abordagem ficcional, na relação entre o Autor e Sol, para somente depois então me levar às reflexões sobre os fatos mais dolorosos da narrativa. Em primeiro plano, as relações, os sentimentos, as circunstâncias. Política, repressão e execuções, pano de fundo.

“Eu a vi primeiro numa noite de sexta-feira de Carnaval … a visão de Soledad … dava na gente a vontade de cantar.”

“… como qualquer companhia de excluídos, não gostaram de que um dos doentes recebesse atenção da única mulher à mesa. E por isso Ivan “detonou”…”

“… toca-lhe o pescoço, toca-lhe as mãos, e haverá um incêndio.”

“E esse caminho, de gozar o paraíso e a ele renunciar, ainda que terrível, seria melhor que a frustração, o sentido de que perdi aquele amor, quando dele tive a oportunidade…”

“Como posso tocar sua alma?”

Ao iniciar a leitura, nos dois primeiros capítulos, me deparei com estas impressões do narrador – contundentes física e psicologicamente – e ainda que algumas já houvesse lido anteriormente, quando inseridas no cenário e no contexto, me causaram maior impressão.

Houve, para mim pessoalmente, na leitura do livro o aflorar de reminiscências, de lembranças e a associação de algumas passagens com aspectos ou situações da minha própria vida. Quer em experiências já decantadas e que reputo aprendizado, quer relacionadas a aspectos e questões ainda em trabalho e que vistas sob o ponto de vista, ora do narrador, ora de Soledad, ganharam cores e nuances muito reveladoras sobre a natureza das relações em geral. Há muito material “psicológico” nesta narrativa. Sem dúvida, tendo sido o narrador introduzido na história para externar a paixão que Soledad suscitou e os sentimentos que engendrou, ainda que factualmente não tenha lá estado, foi também ele “contaminado” pela paixão que permeia toda a narrativa. Havia ali um homem, apaixonado por uma mulher idealizada, cujo pescoço ele não tocou, cujas mãos não beijou, cujo perfume apenas advinhou. E será isso possível? A narrativa feita por um elemento “externo” não impede que surja um conflito deste com o marido de Soledad. Uma clara competição, um elencar e inventariar de virtudes e defeitos de lado a lado, numa tentativa de balanceamento e ponderação quanto ao que “seria melhor” para aquela mulher. Um claro posicionamento de “justa”, de competição para estabelecer domínio e predomínio sobre a dama. Desconfiança mútua. Desconfiança de um narrador ficcional? Como se dá essa construção?

Soledad foi uma mulher incrível, por tudo que viveu. Mas foi uma Musa pelo que nos contou Urariano, seu menestrel. Em suas fotos publicadas nas páginas centrais do livro, um frescor, uma altivez, um tanto de circunspecção. No relato, Soledad em determinada ocasião veste uma túnica e calças compridas – uma saint tropez talvez. Mas sempre que eu penso em Soledad, a vejo em um vestido florido de algodão, sob a luz do sol, vento nos cabelos. “Sol” lhe cai tão bem … Toda uma luminosidade que é refração da luz que vem de dentro. Pessoas solares trazem a claridade. Vejo Soledad assim. Ah, e temos nesta narrativa um jasmineiro. Um perfume permeia a história. Há outros aromas, mas nada tão marcante quanto o jasmim, mesmo o decaído, atapetando o caminho, o branco a pincelar lugubremente a paisagem. E há música. Muita música a ornar, delimitar e acalentar movimentos e pensamentos. Este é um livro-poema.

Soledad iluminou muitas vidas. Jovens, sob enorme, desmedida pressão para seus 20 anos. Jovens que estariam a jogar ping-pong e a namorar nos diretórios acadêmicos e nos pátios ensolarados das Universidades, e que ao invés, sonhavam com “festas de armas”, vigiavam palavras e gestos. Que ligavam para suas casas a saber se algum “amigo” os tinha “procurado”, e se seria então o momento de sumir, de deixar tudo para trás defendendo da desdita familiares e amigos. Aos 20 anos !! Jovens contendo seus impulsos vitais, seus ímpetos amorosos, no contraponto à traição, à queda, à delação, tortura, morte. Sombras a empanar dias que deveriam florir e viscejar. Mulheres em seus anos de viço, de pulsão, de amar submetidas à mais insidiosa violação – pelos amigos, pelos amados. Arrastando junto a violência, a paixão, o tesão de tantos outros. Amores conspurcados. Marcas – a ferro, fogo, sangue – indeléveis.

Soledad é fruto e germe de tudo isso. Soledad vê. Soledad sabe. Os rapazes ainda não sabem, mas ela sabe do perigo. Seu sangue índio a mantém serena, serenamente consciente, serenamente sensível. E há sua condição especial; há ali um fruto. Há ali uma percepção ampliada e a certeza da finitude e de sua proximidade.

Bonitas passagens, Urariano. O narrador formula, tenta elaborar 37 anos depois da partida da musa, a dolorosa hipótese: “e se…”. A hipótese universal dos amantes. E se a tivéssemos raptado – fora ela nossa Perséfone – e isolássemos Soledad e sua cria num campo de trigo, longe de Hades? E se o narrador a tivesse possuído, qual uma Sabina, e a transformasse em sua esposa? E se, e se, e se ???

Soledad é o exercício da ventura sonhada, não realizada. Traz em si toda a força que guarda uma mulher intocada; toda a tormenta do desejo inconcluso, do intercurso nunca realizado, nunca consumado. Um sonho insepulto. Um sonho que todos carregamos, de um amor platônico, onírico, idealizado. Com muita ternura e sensibilidade, o autor torna o relato desta paixão uma peça real, palpável, pulsante. Onde está a força desta narrativa? Na criatividade do autor? O Amor por Soledad, nunca derramado sobre a mulher, habita o seu íntimo…. Como retratar um sentimento tão tépida e profundamente sem carregá-lo? Perguntas que me ficaram desta leitura.

Pois a leitura desta página, em vários momentos, revela um sentimento real, incendiário, carregado de emoções viscerais e de reações inequívocas. Para uma obra de ficção, uma qualidade inestimável. Mérito do autor, mérito de Soledad. Esta brava guerreira.

Soledad no Recife pode parecer, por minhas palavras, mas nem de longe é, um “passeio no parque”. Esta é uma história séria, dolorosa, que revela do homem aspectos que o verniz social muitas vezes pretende fazer crer que já vencemos. Bestialidade, egoísmo, crueldade. Um descortinar do que senso de oportunidade, instinto de sobrevivência e pusilanimidade, quando reunidos, podem fazer um homem vil – e não mais direi sobre ele, as palavras merecem destinação mais nobre – revelar sobre si mesmo, em suas ações. Uma mancha em nossa história. Uma vergonhosa mácula.

E assim foi numa sexta-feira de Carnaval, como esta, lá no Pátio de São Pedro, 1972.

A Soledad do Recife, Soledad de Urariano, Soledad.

E assim é que eu, nesta sexta-feira de Carnaval, humilde dama-do-passo, calunga nas mãos, levo Soledad comigo, Rainha do Frevo e do Maracatu, no coração.

À medida que escrevia, só conseguia pensar em Dora. Ei-la:

Rainha do Frevo e do Maracatu

Soledad de Urariano, Soberana. Soledad do Recife, que em tua homenagem silenciem os Tambores de todas as Nações.

~~~~~~~~

Mais em:

http://jornalggn.com.br/usuario/urariano-mota

Um pouco mais de Dora…

***

Soledad no Recife
Autor Urariano Mota
Prefácio Flávio Aguiar
Páginas 120
Formato 16.00 x 23.00 x 1.50 cm
Peso 160 gr
Ano de publicação 2009
Isbn 978-85-7559-138-3

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