N[D]a Tundra…

IMG-20160303-WA0011

N[D]A TUNDRA

Desde há muito sucedem-se, invariavelmente, as estações: os invernos, as primaveras, os verões e os outonos, nesta ordem. Sucedem-se na velocidade própria dos tempos, com cambiantes e variantes cósmicas que em nossa pretensão e arrogância afirmamos ora naturais, ora efeitos de nossa avidez, tentando advinhar-lhes sabor, textura e aroma próprios. As queremos apreender e depreender.

Fato é que não vivemos ciclos naturais de igual dimensão; a Era do Gelo abrigou inúmeras gerações, sem que uma única a pudesse dissecar, analisar,  presenciar-lhe todos os feitos e efeitos. O fenômeno, sujeito a Leis Naturais, jamais se apresentou ao olhar humano num compasso que o permitisse afirmar: iniciou-se em, findou, extinguiu, fez surgir, etc. Não houve distanciamento para análise, uma vez que nos faltava tamanho e capacidade para estarmos presentes por todo o ciclo coberto pelos fenômenos; tão grandioso que (pros)segue sempre a nos desafiar e engolir.


Para ciclos menores, maior nossa pretensa capacidade de dissecar e entender fenômenos em que nos encontramos imersos e, portanto, não distanciados. Podemos apreciá-los em sua plenitude – senão em nós, em outros – mas daí a compreendê-los…

Isto posto, foi então que houve uma vez um Outono. Especial.

Daqueles enregelantes. Outono de preparo para o hibernar; tempo de reposição. Tempo de balanço, de haurir forças, lamber feridas, cicatrizar. Amalgamar as ervas colhidas sob os luares do verão; no pilão reunir, amassar, pisar, temperando. Vedar. Fermentados e gelatinosos unguentos. Maturação. A vida sendo preparada ainda fora do útero, apesar de já nascida dele. Ingredientes intuídos. Sementes vivas e sepultas. Alquimia.

Prenúncio de um Inverno opaco, próprio da hibernação que antecede uma nova vida a explodir n(um)a primavera vindoura. Brisa fria, o amarelo esmaecido, o castanho rubro, sangue escasso e raro a perpassar as veias de cada folha rara ainda suspensa, pensa de galhos bissextos na tundra nua. A ocre caída, queimada pelo frio, depositada em tapetes folhosos, ralos e rasos, a “humudificar” o solo árido, preparando-o para o fecundar, germinar, abrigar, florescer e frutificar na explosão do vir à luz. Ainda assim tímida, exuberante mas nua.

E neste Outono Especial, uma Ursa.

Como tudo o mais, preparando a toca, juntando o alimento, pressentindo no ar o frio chegando. Seus rebentos estão desmamados mas não haverá parceiros este ano. Esta é a senha para um tempo de (p)reparação e descanso: dormir e ganhar peso para um próximo período reprodutivo. A Ursa, instintivamente, reproduz o ciclo, mas percebe seus dentes, garras e cobertor de gordura fragilizados. Seu pelo já não se mostra impecavelmente impermeável e sua corrida também já não alcança a velocidade e graça de antes. Ciclos. Um descanso das crias e dos embates sexuais vem a calhar, prenunciando uma temporada de refazimento. E para que? Companhia? Ursas são solitárias e sua vida caçando, nadando, acasalando, hibernando e nidificando não lhes exige mais do que curtos e intensos períodos de convivência. É resolver – sexual e parentalmente – o que lhe clama a Natureza e poder retornar às focas que tanto lhe satisfazem e nada lhe exigem, exceto bons dentes, garras afiadas e fôlego, além de um bom pelo, para os mergulhos. Quando muito enterrar o que sobrou para um repasto futuro, em tempos de excassez.


Sendo assim, este é um Tempo bom. De descanso. Sua jornada está se aproximando do fim. Breve, optará pela carniça, o fôlego encurtará na proporção do tempo que ainda lhe couber por sobre a tundra e a imensidão gelada. Tempo de ensimesmar.

A Ursa procura, na encosta já esbranquiçando com geadas ocasionais, uma boa gruta que lhe sirva de toca. Inspeciona o local, verifica saídas, profundidade, fareja. Gosta. Demarca. No aperto do clima, com as borrascas mais intensas e frequentes, a ocupa. Está gorda e feliz. Tranquila em seu atávico existir. Instinto e solidão. Coberta, e a salvo do frio, pelo gelo, prepara-se para um novo sono reparador. Toda a energia que seu corpanzil retém a eximirá de caçar para sobreviver enquanto o frio imperar em seu território. Viver o Ciclo como a Natureza o apresenta.

Cai a neve lá fora e a Ursa dorme.

Do lado de fora, o Ártico – faminto, impiedoso e implacável – Lobo fareja.

IMG-20160305-WA0004

 

***

***

*****

https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Tundra

https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Urso-polar

4 comentários sobre “N[D]a Tundra…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s