Reminiscências

 

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* Texto de outubro de 2015. Publico com algumas atualizações, mas ainda datado. Recordação.

A B O M I N O
D E S P E D I D A S !!!

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DESPEDIDAS

A manifestação dos sentimentos e a passagem pelos rituais “do adeus” – aqui os doutores da psiquê podem explicar melhor – sempre me calam fundo.

Não são eventos extraordinários ou excepcionais; cotidianamente despedimo-nos da carne que perde o viço, do cabelo, da dependência dos filhos, do trabalho concluído, dos gênios irreconciliáveis, dos projetos (nati)mortos, de diálogos [monólogos] sem audição e sem audiência, da gritaria inócua, de amizades que não cabem na mudança de vida. Despedimo-nos por não termos sido escolhidos e em função dos planos modificados a cada novo (re)lance.

Inevitáveis, há que se colocar suavidade e verdade em momentos tão delicados. Havendo outra mente e coração envolvidos, há que se ter ainda maiores cuidados. A dor de machucar o outro nos afeta. Ferir dói. Um tanto de compreensão, gratidão, e raiva e ressentimento, se houver, mas na dose certa. Rompimentos nos impulsionam em outras direções, liberam para outros aprendizados, nos fazem recordar avisos: de vozes outras e da nossa própria. É como a onda de choque de uma explosão; espraia energia em ondas que a tudo atingem: família, amigos, trabalho, nossa saúde e vida social; ondas de longo e duradouro alcance. Oscilação e reversibilidade são efeitos comuns: “coração é terra onde ninguém pisa…”. Significando um stress ainda maior. Mas de garantido, acredito, só o desencarne.

Somos incapazes de alcançar a cósmica abstração do tempo, por isso o demarcamos – com eventos, com música, poesia, encontros, imagens – para podermos suportar o brutal esmagamento que opera a todo instante em nós: escoa ininterruptamente e nos fere com sua indiferença à nossa urgência, aos nossos sonhos, querências e à nossa tola e inócua necessidade de reter – tudo e indefinidamente – o que o devir já levou antes mesmo de ir-se.

E assim vamos, nos deparando com os pequenos episódios que disparam a mudança, imperceptíveis a princípio, mas incontornáveis. O submerso e invisível tremor no oceano que, num crescente acúmulo resulta no colossal tsunami. Depois da zona costeira arrasada, (re)construção, rejunte dos cacos e destroços, lamento e remorsos. Reencontros e retomadas. É, acontece. Muito. Não estamos talhados – há exceções – para o deixar ir. A conquista inebria. A posse define. Perder é insuportável.

Trago a carta de Jung a Freud, gestando o rompimento entre ambos.

E minha carta a um Amigo que se vai (*).

Carta de Jung a Freud

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Meu Amado Amigo e Gentil Companheiro,

Eu sei, já te despediste de mim. Mais de uma vez.

Estou de partida já há algum tempo. Essa despedida tardia é um erro cuja correção adiei até aqui. Mais um. Bem sabes, foram muitos, mútuos e nem sempre inocentes.

Mas você me conhece: nada hei de censurar em ti ou em mim mesma. Nada a ressentir e remoer, que só o que nos cabe é viver da melhor forma que nossa inconformidade e perplexidade permitam. Do escorpião esperemos que aja como um; não somos mais do que dois escorpiões fazendo, cada um, o que sabemos fazer, o que é da nossa natureza.

Sentimentos, circunstâncias, ações e reações, estados de alma.

Complexidades e imperfeições.

Foi para mim um tempo – importante – de (re)aprender; de desconforto, dor de crescimento e todos os clichês que você abomina (inclusive esta carta, que você provavelmente sequer vai ler). Mas foi.

Do que levo em minha mochila, estou certa de ter recebido mais do que pude dar, sempre. E certa também de levar uma amizade decantada do peso morto das nossas dores e imperfeições, das palavras duras, das feridas e amuos; de tudo. Uma diáfana amizade, uma inacessível canção.

Te desejo dias coloridos e suaves, nunca doloridos. O que há de profano e sagrado na existência, sempre pleno, sempre inteiro para que você possa criar livre e intensamente nas tantas artes que te atraem e em que você aplica teu pulsar, com maestria.

Foi muito bom poder fitar o duplo; olhar diretamente para ele, reconhecer nele o reverso. E também o verso, quando uma nesga de sol se insinuava no céu plúmbeo e nuvioso dos dias. Momentos festivos. Fugazes e, talvez por isso, doces.

Vistes e sabes bem mais do que eu e me deste a deixa: há um tanto a ser visto aqui, lá, acolá. Basta viajar, abrir a angular. Tentarei.

Preciso ir; sou lenta, sou de banho-maria. Sou de um pé depois do outro. Mastigo, me demoro, quase nada me apressa ou me tolhe – nem minha inesgotável e cansativa ansiedade – mas é tempo de ir.

Em meus olhos d’água levo a gratidão por este encontro e o desejo de que tenha sido para você, como foi para mim, o ponto e o porto de partida para outros – e mais serenos – mares. Há baías e praias selvagens te esperando; circunavegue e encontre a tua, ponha lá tua rede e embale teu sono e teus sonhos nela, sinta a brisa. Dê-lhe a mão. Dance com ela uma valsa. Desarme-se, relaxe.

Vou em busca de uma erma enseada em que eu possa pisar descalça a areia molhada sem medo de ferir meus pés, massageando-os em sua granulosa densidade e aquosa suavidade. Onde haja paz. Quem sabe a encontro.

Aperto agora tuas mãos nas minhas e vou.

Uma Cigarra.

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