A Porta

nascer do sol

Uma pergunta incômoda me acompanha indecifrável: para que estou aqui?  Há momentos em que me percebo “quase tocando” a resposta. Fugazes, mas contundentes momentos. Quando estou diante de algo que não posso explicar, minha memória afetiva e corporal me põe em alerta para a oportunidade que se apresenta mais uma vez.  Tem me escapado pelos dedos, porém. Alguém?

O dia, os anos

Amanheceu.

Enquanto descia as escadas, granito cinza e gelado sob os pés descalços, percebi o desmaio, iminente. Aguentei firme; sabia que bastaria respirar para evitar que despencasse de vez e o café da manhã fosse perdido. A escada em caracol agravava o quadro, mas nem mesmo o tropeção ao chegar à portaria me deteve e finalmente inspirei com vontade ao receber o sol no rosto e a brisa fria vinda da praia no corpo, por si, gelado. As lágrimas quentes faziam um contraponto lúgubre, salgado, insuportável.

Estava finalmente acabado. Partira. Aquele crescente esvaziamento, a sensação de nada ser, nada mais representar, nem significar de bom, de útil, de amável era devastadora. De tudo representar a nada significar, num sopro. De, qual aquarela a existir para colorir à tela caiada em que nenhuma cor e nenhum calor voltariam a habitar.

Um homem com o jornal debaixo do braço entrou e, me vendo ali, perpassou o olhar pelo “quadro” – camisola despencando sobre os ossos, as olheiras, a súbita velhice e desmoronamento de todas as esperanças que nos mantém de pé – e estampou no rosto a expressão do mais abominável dos sentimentos: piedade extrema.

Para onde agora? Naquele 04 de março aquela porta fechara-se para sempre.

Sentei-me à escadinha, no caminho mesmo de quem pretendesse passar, surda a qualquer eco, cega à luz. E agora, “Paulinha”? Como serão os próximos 30 anos?  Porque – e onde – encontrar energia, motivo? Aonde foi a que você colocou neste afeto tão definitivo e que, à revelia, te foi retirado rápida e irremediavelmente?

A brisa marinha lançou-me em uma vigília contraditoriamente onírica, enregelante; cheia de reminiscências, lembranças, uma “hipotermia” em que mergulhei de bom grado, não querendo retornar, inerme.  À despedida, cheiros e lembranças, calor e pressão, o corpo doído do golpe sutil. Um leve zunido no ouvido, sono incontrolável, vontade de deitar e jamais levantar. Saudade. A roupa alva, o lenço preferido, o perfume nunca outra vez percebido e sorvido no pescoço. Abraços, palavras, conforto: tentativas – tudo tão inócuo. O amor partira. Nada pode resolver, nada pode aplacar.

Seria aquela a dor maior? Ou a ausência, o automatismo e solidão dos dias seriam dor ainda mais dilacerante?

Num comentário clichê e infeliz – de uma alma boa mas ingênua – continuar, tocar adiante, recomeçar. Sem o dínamo, sem a chama, sem o chão… “Papo chato; não há alívio nem remédio…”. “Daqui até minha própria partida, este permanente descolorido, infinita nulidade e irrelevância!”.

Haveria uma porta, ainda entreaberta, pela qual eu pudesse sair? Ansiava por ela; por um caminho que me permitisse não pensar para não doer. Não queria uma saída honrosa. Queria apenas não estar.

Por que porta iria então? 

Amanheceu …

À Aurora: descendo as escadas, quase o tropeço. A pressa, a apresentação para o sócio e a nova consultora; ocupando a mente e afetando os reflexos.

Um café preto, alimentei e fiz nos bichanos o ritual da despedida e pus o bloco na rua. Tudo programado, ajustadinho. Perfeito. Minha mãe ligou logo cedo querendo relatar probleminhas com minha sobrinha adolescente e com a nova faxineira. “Mãe, estou atrasada. Posso te ligar mais tarde?” Vinha exercitando há 10 anos a arte da indisponibilidade para os pequenos conflitos e o prosaico do cotidiano. Pretendia produzir, estar ocupada e bem! Estava sempre bem.

Cinco da tarde, trabalho feito, tudo resolvido: não gostei nada do ar displicente e pouco focado da nova consultora; parecia estar ali para uma conversa e não para uma entrevista. Dei meu parecer técnico – sabe, não sabe, domina isto, desconhece aquilo, a fragilidade está na postura, etc. – e o sócio decidiu-se pela contratação. Apresentei as recomendações, alertei para os riscos e tirei o time. Tudo fluindo, vida seguindo, nada sentindo. Clichê, clichê !!

Deixando a garagem do prédio tudo que eu havia evitado todo o dia – e por muitos anos – apresentou-se em seu esplendor. Trombei com uma camionete, lá se foi a frente do carro e o meu sossego diligentemente conservado e protegido numa vida sem “sansara” .

Saímos dos carros. Surpresa! O motorista da S10 (ou teria sido uma Cherokee?) era ninguém menos que EB, amigo de toda a vida, agora um nômade inveterado em suas andanças pelo mundo. E o danado ainda ganhava dinheiro vivendo em movimento constante! Não pude deixar de rir: um rosto amigo era o motivo da minha contrariedade. Sabiamente, nos decidimos por uma cerveja. Desmarquei compromissos – salão, yoga, todas as coisas que me mantinham sã (?!) – e partimos para uma noite de papo amigo e reminiscências. Meu esporte preferido, uma boa conversa. Certa de que conversaríamos sobre suas viagens, suas atividades, suas coisas. A primeira pergunta que me fez, depois dos beijos, abraços e comentários sobre os afetos em comum: “e o luto, como foi?”

Não, não vou repetir aqui o 1º. Ato. Uma onda de calor me aqueceu o peito de tal forma que eu precisei ficar de pé para respirar. EB, cirúrgico e terapêutico como os amigos costumam ser, havia estado lá. Sublimei, enterrei, sufoquei e foi ótimo! Não precisei jamais recordar; mas uma pergunta simples, destruiu minha construção… Um corpo vivo, funcional, produtivo e emocionalmente destroçado estivera encerrado numa campa, respirando. As lágrimas inundaram aquela tarde-noite que carregava a promessa da suavidade e da alegria. Ei-las ali, nuas: a culpa, a tortura, a impotência, a desvalia.

“Paulinha” estava liberta. Precisava da cura e de uma porta pois agora não podia mais refugar. Que porta?

Amanheceu. De verdade!

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Odonir comentou no GGN:

sex, 29/05/2015 – 11:36

Quando Deus fecha uma porta abre uma janela- diz o dito popular

ainda que portas e janelas possam ter o mesmo significado, há também os corredores, às vezes retos, às vezes transversais ou obliquamente interpretáveis …

“numa transversal do tempo” E de um sinal fechado na garagem pra uma transversal dessas do tempo, quem? ELIS !

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Motivo

Amanheceu.

E muito antes disso eu já estava acordada.  Nos últimos anos, findas as atividades que me “mantinham” em pé e “sã” (trabalhar basicamente) ao me deitar para dormir literalmente apagava num sono sem sonhos e acordava cedo para mais cedo recomeçar e repetir, repetir, repetir. Lá estavam os bichanos. Lá estavam os almoços de domingo. Lá estavam minhas responsabilidades e afazeres. E minha anestesia.

Mas o eu, dos últimos 10 anos, já não estava mais lá. Ou melhor, não queria estar. Antes, queria abrir espaço para o Eu. Na composição perfeita entre personalidade e individualidade, algo estava perdido, adormecido e agora, pela intervenção do “mensageiro”, pronto para renascer e cumprir seu papel.

É preciso caminhar e EB foi o jardineiro a regar, naqueles dias, o terreno, pacientemente me ajudando a descongelar e a entender que era preciso acordar, levantar e continuar caminhando. A despeito da dor e justo por causa dela. Que o meu egoísmo estava negando ao mundo minha presença. Interpelei-o dizendo: mas pensar isso é o cúmulo da vaidade; que diferença posso eu, imperfeita, insignificante fazer estando ou não no mundo?  E a resposta dele me calou tão fundo que eu acredito que foi naquele momento mesmo que eu finalmente me decidi a fazer algum movimento efetivo de resgate. Disse-me ele, com uma doçura que ainda neste momento me leva às lágrimas, em linhas gerais: “se você te retira do mundo, afeta um equilíbrio cósmico que se restaura a todo instante. Há uma grande teia de luz, de energia, de causalidade – não casualidade – a nos envolver e nos unir a todos. Quando um elemento está desconectado dela, o equilíbrio do todo é afetado. Certamente que o universo, perfeito, fará o ajuste mas para isso sobrecarregará outro ponto, em compensação à tua inércia e ausência. Não duvido que você tenha, ao longo desses anos, recebido muitas e muitas mensagens e tenha estado com pessoas que seriam para você os mensageiros sinalizando as portas de saída deste estado de desequilíbrio. Mas quando estamos em dor tão profunda, muitas vezes não enxergamos os sinais e deixamos passar. O Universo é tão perfeito e tão maravilhosamente harmonioso que depois das tentativas frustradas precisou me trazer de um ponto do globo até aqui para, te causando um estrago material, te ajudar a reencontrar tua anima, tua energia vital, tua existência, tão importante para a existência geral.”

Como escutar algo assim e se recusar, ao menos, a refletir. E foi isso o que aconteceu. EB deixou em minhas mãos um livro – sempre eles – e eu o devorei.

E agora eu caminhava num dia ensolarado e conseguia enxergar a linha do horizonte. E havia algo lá.

O que seria?

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Comentários no GGN:

Odonir Oliveira: seg, 28/09/2015 – 04:49

De maio a outubro- uma jornada

Lembro-me bem desse seu texto “iniciado” em maio. Propunha continuação e… interrompido ficou. Satisfeita com seu retorno, em capítulos. Se, em maio, postei como trilha sonora a Elis em “Transversal do tempo”, o que postaria como trilha agora?Muitas…mas segura essa aí.

Tim Maia, Paixão Antiga

Anna responde a Odonir: seg, 28/09/2015 – 11:08

Inter Regno

Há muitas formas de interromper e fugir. Uma delas é o encontro com a suavidade, com a doçura e com o abrigo dos iguais. É bom e refresca a alma das dores; mas de repente, elas voltam.

Ao invés de curar a ferida, põe-se sobre ela um unguento, uma gaze, uma meia, mas nada disso afasta as moscas. Se a ferida não estiver curada elas voltam e a ferida começa a sorar de novo.

A suavidade, a doçura e o abrigo vão conosco, nos foram tão sedativos, tão confortantes, mas a ferida continua lá até que interrompa-se o interregno.

Vezes há, no entanto, em que é tarde demais. E não se consegue purgar, secar e fazer cicatrizar a ferida. A escara permanece e nos resta levá-la conosco indefinidamente. …

Terra Sonora, Seresta

Odonir Oliveira replica: seg, 28/09/2015 – 19:28

Bonito, Anna

Meu jardineiro, seu José, como sempre um mestre, hoje à tarde inteira passou-me umas lições sobre árvores, grama e flores. Como gosto de ficar lá no terreno com ele! Eu lhe ensino a fazer renda , ele …………. .

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Eros

 Amanheceu …

Horas ininterruptas, mas terminei.

 Nenhum esforço; sempre apreciei a madrugada e não fora meus compromissos profissionais minha vigília seria noturna sempre.

Páginas devoradas; nelas um tanto de mim, da minha dor e muito do meu autocentrado olhar. Num relato, uma vivência e uma miríade de reflexões. A elas seguiram-se muitas outras. Inspiração de EB que, distante, restava “presente” a me lembrar de prosseguir, de fazer por mim mesma.

 Lenta, mas ininterruptamente, acessei “Paulinha”, olhei nos olhos de Anna, refiz trajetos, cuidei de limpar baús mentais e corporais, redecorar a “casa”, (re)construir pontes abaladas e embalar a Pequena em redes à beira mar, dando-lhe conforto e alívio. Laços frouxos foram apertados, correção e perdão empreendidos.

Uma beleza. EB, partindo, havia sido ainda assim um alívio, libertação. Um estímulo para o reencontro com a identidade, a compreensão do erro e a correção pela vivência.

 Meu amor pelo trabalho, genuíno, estava agora livre da punição, do masoquismo, da fuga. Os problemas continuavam lá; minha visão e reação haviam se modificado. A compreensão e o trabalho – difícil – de reedificação me propiciavam uma atitude positiva e franca frente ao que se apresentava. Eu mudara; o reencontro ocorrera.

Em nove meses – não é um recurso – o processo tinha firmado as bases. Nos dois anos seguintes trabalhei o reforço, estimulei vivência e prática e a velha Anna estava de volta. A sepultada havia renascido.

 No entanto …

Da velha “Paulinha” restava algo sublimado, escondido, obliterado. O Amor.

Não Ágape, não Philia. Restava Eros sepulto. E Anna prosseguia apostando que viver sem Ele era a escolha certa. Depois de todo aquele “trabalho interior”, dar acesso ao que há de mais exterior poderia revelar-se um retrocesso.

Arriscar a Paz alcançada não parecia ser uma decisão inteligente.

Prosseguia renovada: lá ainda estavam os bichanos, os almoços de domingo, minhas responsabilidades e afazeres, agora “sob nova direção”. E a anestesia? Havia mesmo me livrado dela ou ainda haveria um muro a me manter a salvo?

À minha frente, a prova dos nove.

Num momento preciso, exato – marco já recuperado em minha memória – e levada por minha curiosidade e gosto quase obsessivo pela construção semântica eficaz cheguei a um novo ambiente. De imediato, me fascinou. Havia ali uma aragem, uma brisa fresca que carregava a isca perfeita: opinião, ideias, conhecimento. Nada mais afrodisíaco, nada mais viciante. Ler é a lei nestas paragens. E é permitido escrever e divergir. Anna, “Paulinha” e todas as demais viram-se, de repente, em seu ambiente, felizes, cercadas de magos, preceptores, de  inteligência e opinião; aquela mesma que não encontrava mais nos amigos de longa data, agora aparentemente “transformados” ou, na pior das hipóteses, revelados frente às circunstâncias.

Tateando, adentrei o recinto e, bem “Anna”, calada e observando, fui me ambientando timidamente, sempre com um olhar de admiração, seguindo preferências, afinidades, simpatias. Discursos, narrativas. Tanto talento junto e eu ali, com permissão para olhar e aprender! Parecia eu uma criança diante da loja de brinquedos. Tal qual Emília, só queria me aventurar, atrevidamente participar, meter o  nariz que sou de opinião. Foi um tempo muito feliz, muito relaxado. De grande atividade mental, de gratificantes descobertas. Pessoas que pensavam e, algumas, que pensavam como eu. Devorava tudo que me podia alimentar e aprendia com os “veteranos”. Sou fascinada pelo saber, pela competência. Nada há de mais atraente do que uma pessoa que sabe, que leu, que viu, que tem vontade de ensinar. Que experimentou. Isto define uma pessoa. Tem peso. Ainda que use o saber equivocadamente. Ainda assim, para saber, houve um esforço. E é isso que é tão convidativo: poder aprender e compartilhar.

E Eros estava lá.

A Alvorada soou e me trouxe de volta, intensa e completamente, inteira e pronta. Sem anestesia agora. Sem filtro.

Era Primavera. Como agora (*).

 

(*) postado em 12/10/2015, em http://wescribe.co/t/a-porta-3.

2 comentários sobre “A Porta

    1. Sim. Recoloca algumas coisas na perspectiva correta, se saíram um pouco de foco.
      Não poderia apagar teu comentário. Ele refletia, e reflete, exatamente aquele momento e foi importante para mim.
      Tenho lido muita coisa para decidir o que vou trazer para a casa nova ou não. Às vezes dói um pouco mas é curativo também.
      Obrigada por passar por aqui.
      Em frente!

      Curtido por 1 pessoa

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